Crítica: “A História de Uma Designação”

Existe um velho ditado que diz que por falta de um prego, perdeu-se uma ferradura, por falta da ferradura perde-se o cavalo, sem cavalo não há cavaleiro, sem o cavaleiro a batalha foi perdida. O dito popular exemplifica que, por menor que seja algo, esta mesma coisa pode influenciar uma sequência de eventos tão grande, que podem mudar a face da história.

É como o julgamento do oficial Vasily Shabunin para Lev Tolstoy, o famoso autor realista russo, que fora conclamado a defender o soldado perante uma corte marcial, após este desferir um tapa contra um superior, ofensa punível por morte segundo os regulamentos do exército russo da época (ca. 1866). Este caso obscuro teria uma repercussão tão grande na vida do autor que mesmo acontecimentos maiores e mais impressionantes não seriam tão marcantes para ele, segundo o próprio.

Aos que bem conhecem o corpo da obra do autor, assim como sua vida, sabem que ele era um devoto pacifista, e suas influências nos movimentos de resistência pacífica, desde Gandhi – seu correspondente – a Martin Luther King, bem como vários outros. No entanto, muito se deve a este esquecido julgamento cuja história mesmo muitos dos grandes fãs de Tolstoy desconhecem, o proverbial prego cuja existência permitiu a vitória na batalha do ditado.

“A História de Uma Designação” (The Story of an Appointment) é uma dramatização deste caso tão influente para a vida de Tolstoy. A história, no entanto, não é contada do ponto de vista do autor, mas sim de um dos responsáveis por torná-lo o defensor de Shabunin, o tenente Kolokoltsev (Aleksey Smirnov)

Nesta versão, este é retratado como um jovem oficial idealista, partidário do humanismo, que acredita em tratar os seus subordinados com um mínimo de humanidade, no entanto falha por continuamente confrontar seu superior, que é seu exato oposto. Por sua vez, este modo de agir vem também por uma necessidade de provar-se perante seu pai, deixando uma marca maior no exército que seus irmãos mais velhos, que são heróis de guerra.

O filme tem uma pesada carga social, apontando como o governo e sociedade falha com seus cidadãos mais vulneráveis: Shabunin é um filho nascido fora do casamento, com claras deficiências intelectuais, agravadas pelo alcoolismo, problema comum até hoje na Rússia, e pelo constante abuso de seus colegas de quartel. A estes é considerada a pena de morte, enquanto um filho de general influente como Kolokoltsev pode falhar e acaba por alcançar uma posição de comando.

Ironicamente, essa insensibilidade social e as leis severas que se tornam dracônicas para proteger um governo paranoico com medo de mostrar fraquezas que supostamente abririam as portas para revoltas que ressoam com a Rússia atual, onde o governo Putin, assim como o tzarista, falha em proteger os vulneráveis, quando não é seu algoz.

A produção também apresenta duas faces do ativismo: o hipócrita, representado por Kolokoltsev, que apesar de seus ditos ideais elevados e intelectualismo acaba por falhar com quem deseja defender, e simplesmente volta à vida como se nada tivesse ocorrido, e ainda acha que fez o que podia, quando não; por outro lado, temos Tolstoy, que se torna ainda mais dedicado em suas crenças e causas, e cujo o arrependimento por ter falhado é gritante.

À parte das questões do roteiro, merecem elogios as atuações do elenco. Aleksey Smirnov dá um banho como o petulante e idealista Kolokoltsev, e, apesar dos poucos créditos em seu nome, demonstra um grande talento; Irina Gorbacheva, embora represente o papel secundário de Sophia Tolstaya – esposa de Tolstoy –, mostra por que é uma atriz em alta; por fim, Evgeniy Kharitonov, é um Tolstoy impetuoso, mas ainda sincero e ocasionalmente terno com os seus.

 Apesar de todas as liberdades históricas, “A História de Uma Designação” apresenta bem sua mensagem, e é uma bela peça sobre um ponto de virada na vida de um dos mais importantes autores na literatura mundial.

O drama histórico está disponível na programação do 2º Festival de Cinema Russo no Brasil. Para acessar a plataforma do festival, acesse os sites da Spcine: www.spcineplay.com.br e www.spcine.com.br. Você será direcionado para a plataforma de exibição, Supo Mungam Plus, onde basta fazer um breve cadastro e assistir aos filmes diretamente, de forma gratuita.

por Ícaro Marques – especial para A Toupeira

*Título assistido via streaming a convite da Supo Mungam Plus.

Filed in: BD, DVD, Digital

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