Crítica: “A Lenda de Candyman”

É de se exaltar a imensa, embora nem sempre bem utilizada, capacidade criativa do mercado de entretenimento em geral. Apresentado ao público em 1985, através de “The Forbidden”, um conto simples, com cerca de 60 páginas (dependendo da publicação), Candyman tornou-se um ícone entre os fãs de terror / horror – o que significa que haveria um óbvio interesse por parte da indústria cinematográfica em levar sua história às telonas. E assim foi.

O personagem criado por Clive Barker tornou-se protagonista de uma trilogia composta por obras lançadas em 1992 (O Mistério de Candyman), 1995 (Candyman 2: A Vingança) e 1999 (Candyman: Dia dos Mortos), todas estreladas pelo ótimo Tony Todd. Embora o conto seja a base para as tramas, é visível como, a cada novo filme, elementos inéditos – e que acabam até mesmo se distanciando em partes do material original – são inseridos, a fim de criar conteúdos exclusivos para seus roteiros.

Inicialmente previsto para estrear em 2020, e após sofrer atrasos devido à pandemia de Covid-19, “A Lenda de Candyman” (Candyman) chega aos cinemas como uma “continuação direta” do título de 1992 (o que não significa que seja obrigatório ter assistido ao primeiro filme para entender este, mas ter o conhecimento prévio fará com que vários detalhes bacanas sejam percebidos) e traz uma narrativa que se espelha no que foi apresentado anteriormente em tela –  respeitando todas as (muitas) alterações em relação ao conto literário.

A história se passa em Chicago e gira em torno de Anthony McCoy (Yahya Abdul-Mateen II) artista plástico em ascensão, que sofre com um bloqueio criativo que já dura dois anos, provocando um desfavorável hiato em sua carreira. Sua namorada Brianna Cartwright (Teyonah Parris) é uma diretora de galeria, que o incentiva a buscar novas inspirações a fim de criar obras que possam atrair a atenção dos amantes das artes.

É nessa busca pelo novo – e após o interesse gerado por uma história contada por seu cunhado Troy (Nathan Stewart-Jarrett), que basicamente resume o primeiro filme da trilogia dos anos de 1990 – que Anthony acaba no decadente condomínio Cabrini-Green e embarca em uma inesperada jornada não só pelo misticismo que ronda o lugar (com o medo enraizado através das lendas urbanas, em especial a do temível Candyman), mas pelo temor diário sentido pelos moradores do local, que surge na forma do racismo, segregação racial e gentrificação.

Conforme aumenta o envolvimento de Anthony com a lenda, mais interessante fica a produção dirigida por Nia DaCosta (que também escreve o roteiro junto Win Rosenfeld e Jordan Peele, dupla que ainda assume a função de produtores), que consegue apresentar um resultado que deve agradar tanto quem procura por terror / horror – em especial no que diz respeito às cenas envolvendo a mitologia de Candyman, propriamente dita – quanto quem espera por um título que discuta questões sempre pertinentes e que têm ganho mais força na atualidade.

O grande trunfo de “A Lenda de Candyman” reside em seus detalhes. A utilização de teatro de sombras, que soa como lúdica e assustadora – e entrega créditos finais que situam o espectador em todos os pontos chaves da trama; a trilha sonora impecável (composta por Robert A. A. Lowe), com um tema instrumental capaz de provocar arrepios – além de contar com Sammy Davis Junior e sua incrível canção “The Candyman”, que através de acordes com toques infantis consegue, dentro deste contexto, assustar com facilidade – tal qual a música com acordes infantis de outra emblemática figura do terror, Freddy Krueger.

Também vale destacar o retorno de Vanessa Estelle Williams, que após 28 anos, volta a dar vida à Anne-Marie McCoy, mãe de Anthony. E a mais do que merecida homenagem a Tony Todd, que transformou seu rosto na versão definitiva de Candyman (ainda que o personagem seja retratado de maneira muito diferente nas páginas do conto original).

Para se ter uma ideia da importância de se trazer os assuntos tratados em “A Lenda de Candyman” à tona, basta perceber como um trecho do texto literário segue atual, como se tivesse sido escrito hoje: “Estamos entorpecidos pela violência. Nós não a notamos mais, mesmo quando ela está debaixo de nosso próprio nariz”.

Vale conferir.

por Angela Debellis

*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Universal Pictures.

Filed in: Cinema

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