Crítica: “A Primeira Noite de Crime”

Um aviso: “A Primeira Noite de Crime” (The First Purge), além de violento, trata de temas muito sensíveis na atualidade, como política, racismo – principalmente na forma de violência racial –, e carrega uma crítica pesada à extrema-direita. Se algum desses temas lhe ofende ou sensibiliza, recomendo que não assista ao filme, e pare de ler por aqui.

Em um 2014 alternativo, a crise econômica que engloba o país há tempos chega a seu ponto culminante. Com isso, um novo partido, o “Novos Pais Fundadores da América” (New Founding Fathers os America, ou NFFA), surge, rapidamente ascendendo ao poder, e à presidência. Uma de suas principais propostas quando assumem a chefia da nação é uma noite de expurgo, na qual toda forma de criminalidade, com exceção de algumas formas contra o governo, é liberada sem punição pela lei.

Como teste dessa proposta, uma região de Nova York é escolhida: Staten Island. A região, de classe média-baixa e baixa, será o palco da primeira “noite do crime” como apelidaram. Porém existem interesses escusos por trás tanto do teste, quanto da própria proposta.

“A Primeira Noite de Crime” é um título político. É impossível não o assistir e perceber os paralelos entre o NFFA e o Tea Party – um partido americano que apesar de se apresenta como uma rota alternativa ao bipartidarismo, prometendo melhorias sociais, porém sendo na verdade lutando pelo Status Quo –, e Donald Trump – um governo autoritário, e com alinhamentos com a extrema direita. O longa vai além, mostrando o NFFA como um partido totalitário, de inspirações fascistas, particularmente em seus símbolos, e satirizando ainda mais os supracitados.

A crítica ao racismo e ao classismo também é pesada. A escolha do local do teste, Staten Island, retratada no filme como povoada em sua maioria por grupos de latinos e negros, com uma grande parcela pobre da população, tem mais a ver com a eliminação das comunidades, do que com a ideia de uma liberação da grande raiva guardada, como é demonstrado quando a própria população – que inclui gangues pesadas de narcotraficantes – não adere a um frenesi criminoso, tendo a maior parte dos delitos restritos à agressão, vandalismo e roubos, e pouquíssimos assassinatos, mais ligados a ações de criminosos reincidentes.

Esse ponto de vista, eliminação de comunidades indesejadas, é reforçado quando grupos de ódio, como a Ku Klux Klan e Nação Ariana são soltos pela cidade, armados e reforçados por mercenários através do Estado, para simular uma maior adesão.

Infelizmente, a produção tem um problema de público: quer ser um para aqueles que são extremamente críticos da situação atual, e ao mesmo tempo para quem gosta de filmes com altos níveis de violência estilizada. E infelizmente, isso é um nicho bem específico, e agrada poucas pessoas, afastando quem não gosta de um lado ou outro dos principais chamativos do longa.

Outro problema está no departamento das atuações, em sua maioria fracas. As melhores estão a cargo de Marisa Tomei, como a psicóloga May Updale, responsável pela ideia do Expurgo, e Lex Scott Davis, como Nya, uma militante anti-Expurgo, mas ainda assim não são das melhores.

A parte técnica não colabora também: o roteiro várias vezes é confuso, e tem vários buracos. Os efeitos visuais, apenas convencem, e particularmente o sangue quando apresentado de maneira digital poderia ser mais bem feito – e isso num filme com muito sangue é algo grave. A trilha é fraca, e o uso de músicas não compostas para a produção não é tão bem pensado.

Por fim, “A Primeira Noite de Crime” é razoável. Para quem gosta tanto de filmes de crítica social, e de violência extrema e estilizada, pode ser uma escolha. Porém para quem não gosta de violência, ou quer seu filme violento longe de política, não é a melhor opção.

por Ícaro Marques – especial para A Toupeira

Filed in: Cinema

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