Crítica: “A Verdadeira História de Ned kelly”

Falar de histórias de delinquentes que são ou parecem heróis é tarefa intensa e até importante. Falar de irlandeses, especialmente quando confrontados com ingleses, também é um tema à parte. Desses dois assuntos se ocupa o filme australiano “A Verdadeira História de Ned Kelly” (True History of the Kelly Gang). E de vários outros, que procuraremos enumerar nesta crítica.

Edward “Ned” Kelly foi uma personagem histórica, de origem irlandesa, que morava na Austrália junto à sua família, devido à feroz perseguição que os ingleses fizeram do pai quando assolaram a Irlanda.

O relato é intenso, vibrante, denso, violento. Um drama com narração, imagens e situações que fazem lembrar Gangues de New York, de Martin Scorsese – ainda mais que O Irlandês. Deve-se dizer que, desde 1959, houve vários outros títulos que já se ocuparam dessa personagem, com participação de atores famosos, como Heath Ledger e, inclusive, Mick Jagger, não como músico, mas no rol de ator.

Nesta ocasião, a abertura do longa possui uma advertência: “Nada do que você verá é a verdadeira história de Ned Kelly”. A seguir, o relato apresenta uma carta em que uma mãe pede ao filho que não acredite em tudo o que se fala sobre seu pai (Ned Kelly), e que saiba diferenciar entre o que se diz e o que foi verdade. Explica, ainda, que seu relato não terá nenhuma mentira. Tais afirmações criam planos consecutivos que podem desnortear o espectador.

A trama, no entanto, prossegue, agora mostrando uma pessoa cavalgando rapidamente, em uma cena belíssima. Depois ficaremos sabendo que era o pai do protagonista, correndo em uma espécie de fuga dos ingleses, que finalmente haveriam de expulsá-lo de Irlanda e o levariam para a Austrália. Nesse novo momento, o filme ficará com ele e sua família, revelando um destino cheio de tormentos, ainda nesse outro continente.

Já nessa cena inaugural, começa a ficar caracterizada a excelência dos trabalhos de fotografia (Ari Wegner), incluindo a parte aérea (Heliguy) e os pilotos de drones (Guy Alexandre e Alastair Smith). Também a música (o experiente Jed Kurzel), a edição (Nick Fenton, de extensa carreira) e o figurino (Alice Babidge). Há situações que não são mostradas explicitamente, mas cujas consequências ficam claras para o espectador.

Há tomadas muito belas (por exemplo, uma árvore sem folhas, que dá início a uma cena) ou lembranças do passado que aparecem ocasionalmente, que, entretanto, ilustram bem os sentimentos da personagem.

A direção de Justin Kurzel puxa todos esses elementos e também as corretas atuações de George MacKay, como Ned Kelly, e de Essie Davis, como a sofrida e valente mãe. Menção especial para Russell Crowe, em papel duro e marcante. Tudo isso dá lugar a um drama muito denso, com abundância (excesso?) de sangue e crueldade.

Não há muita margem para sentimentos carinhosos, embora existam – principalmente na relação de mãe e filho. Não há grande participação do amor, mas sim de sexo; em geral, bastante violento, forçado. A justiça não existe. A vida não é simples nem fácil.

A história é dividida em três partes, abrangendo a condição de menino/jovem, adulto, e “Monitor”, uma espécie de título de líder de uma gangue ou exército rebelde, segundo interpretações ou leituras opostas.

Os irlandeses são vistos, principalmente pelos ingleses, como bêbados e briguentos (“Um irlandês que não gosta de bebida ou luta, é uma novidade”). Porém, no decorrer do relato são os ingleses os cruéis, dominadores, enganadores e mentirosos. Principalmente nas últimas sequências, essa condição se faz mais evidente.

Por outra parte, complementária à anterior, o filme se situa em uma fina linha que separa a definição de assassino, da de herói. É evidente que o relato humaniza a condição do protagonista e até justifica ou explica os motivos de vida que o levaram a ser um homem duro. Assim, ainda que sem conhecer os fatos efetivamente ocorridos, o espectador acompanha o percurso, seguramente se perguntando quanta verdade há e quem foi esse indivíduo, essa pessoa.

A obra traz muita intensidade, inclusive com situações violentas, porém também dá lugar a muita reflexão. Não apenas procura que não julguemos, mas nos traz, ainda, afirmações inteligentes, para pensar: “Quando um homem se despede deste mundo, só fica sua história”; “Um homem não pode fugir de seu destino nem dos crimes de seu passado”; “Todo homem deve ser autor de sua própria história”; “Será que sou uma boa mãe? A única resposta será até onde seus filhos irão para cuidar de você”. Ou diálogos, como: “– Nada é de graça neste mundo” – disse a mãe. “– Algumas coisas deveriam ser” – responde o filho.

Ao voltar a seu lar, perante uma situação conflitiva, afirma que veio “para trabalhar, não para roubar. Que quer ter uma vida simples e honesta, longe da desilusão e sujeira da (sua) linhagem”. Porém, o caminho não será desse jeito.

A Verdadeira História de Ned Kelly é um muito bom filme, embora densamente dramático e com violência que chega a incomodar. Pesa mais, no entanto, a maneira como está realizado e as reflexões às que dá lugar.

por Tomás Allen – especial para A Toupeira

*Título assistido via streaming, a convite da A2 Filmes.

Filed in: Cinema

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