Crítica: “Alita: Anjo de Combate”

Baseada na série de mangás de Yukito Kishiro, lançada em 1990 no Japão, com uma temática cyberpunk, a trama de “Alita: Anjo de Combate” (Battle Angel: Alita) se passa em 2563 e mostra uma sociedade bastante contraditória.

Ao mesmo tempo em que a tecnologia evoluiu a ponto de seres humanos e ciborgues – além de criaturas híbridas – terem a possibilidade de viver em grupo, houve um claro retrocesso social depois da chamada “A Queda”, guerra que há 300 anos gerou uma ruptura entre as cidades, fazendo com que o progresso fosse mérito apenas de uma: Zalem, a única cidade aérea em atividade.

O cenário principal do longa dirigido e roteirizado por Robert Rodriguez é a Cidade do Ferro, local marcado pela diversidade de seus habitantes que vieram de todos os cantos do globo e pelo tráfico de membros robóticos. Lá vive o cientista Doutor Dyson Ido (Christoph Waltz), responsável pela inesperada descoberta em um ferro-velho da cabeça mecânica  – com um cérebro humano praticamente intacto – de Alita (Rosa Salazar em excelente interpretação aliada à captura de movimentos), a qual consegue acoplar a outro corpo cibernético, devolvendo “a vida” à ciborgue.

Mas, ao acordar em sua nova realidade, a protagonista não consegue se lembrar de nada de seu passado, nem mesmo de seu nome verdadeiro, o que a transforma em alguém que enxerga tudo como sua primeira experiência. Tal fato, que implica, entre outras coisas, na degustação uma barra de chocolate, no derramamento de lágrimas e em um passeio pelo centro da cidade (com direito a brincadeiras com um adorável cãozinho), aproximam a personagem do público.

Quando tudo parece caminhar para a aceitação de uma vida pacata ciceroneada por Doutor Ido, Alita tem acesso a um local que trará lembranças à tona e servirá de explicação para sua exímia habilidade para luta – vista de maneira repentina em uma boa cena envolvendo ciborgues pouco amigáveis.

Vários elementos interessantes são apresentados de maneira visualmente exemplar (como já era de se esperar em um trabalho produzido por James Cameron, que também assina o roteiro ao lado de Robert Rodriguez e Laeta Kalogridis): a identidade de cada personagem – definida por aparências únicas que vão de braços que simulam movimentos aracnídeos a olhos que contém todos os traços característicos de mangá; as partidas de Motorball – esporte violento e mortal praticado por ciborgues que têm como conquista máxima o direito de ter acesso a Zalem.

É claro que ainda há espaço para os personagens coadjuvantes que ajudam a contar a história sob perspectivas e interesses próprios: o jovem Hugo (Keean Johnson) cujo sonho maior é conhecer a tal cidade aérea e que se torna interesse amoroso de Alita; Vector (Mahershala Ali), figura de destaque no mundo do Motorball com seus ciborgues cada vez mais atualizados e eficazes, que também visa a ida para Zalem, custe o que custar; a médica Doutora Chiren (Jennifer Connelly), ex-esposa de Ido, cujo caráter parece transitar entre o bem e o mal.

Com um final que praticamente joga no colo da plateia a expectativa de se levar a franquia adiante nos cinemas, “Alita: Anjo de Combate” acaba deixando muita coisa em aberto, inclusive a real função e a dimensão do perigo oferecido pelo enigmático Nova (Edward Norton). E tem como maior problema uma desnecessária (e impensada) cena envolvendo o execrável ciborgue Grewishka (Jackie Earle Haley) que fez com que minha atenção ao restante da narrativa ficasse bastante prejudicada após sua exibição. Nem sempre violência gratuita se mostra um eficiente cartão de visitas.

Fica a torcida por futuros capítulos.

por Angela Debellis

Filed in: Cinema

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