Crítica: “Babenco – Alguém tem que ouvir o coração e dizer: Parou”

Dizer que Hector Babenco é um dos mais importantes do cinema brasileiro é eufemismo: ele não só dirigiu alguns dos filmes nacionais mais influentes tanto dentro quanto fora do Brasil – “Pixote”, “Carandiru” –, como também foi um dos primeiros do país a concorrer a um Oscar, e não só de melhor filme estrangeiro, bem como de melhor direção, com “O Beijo da Mulher Aranha”.

Também é um dos poucos criadores que teve a honra de criar uma obra inspirada pela própria morte já anunciada: seu filme “Meu Amigo Hindu” é sobre sua lenta e sofrida caminhada ao fim pelo câncer, e uma reflexão sobre o criador e sua relação com a doença.

“Babenco – Alguém tem que ouvir o coração e dizer: Parou” é outro filme que reflete sobre o câncer e a carreira do diretor, e por sua vez é dirigido pela esposa dele, Bárbara Paz, em sua estreia como criadora de longas – ela mesma já teve experiência com dois curtas anteriores.

Esta é, em si, a última obra de Babenco e a primeira de Paz: são visíveis as influências estéticas do diretor, até mesmo na opção de fazer o filme preto e branco. Porém, os anos de produção e filmagem, que se iniciaram durante as filmagens de “Meu Amigo Hindu”, se estendem além dos últimos momentos de Babenco, de forma que vemos as próprias escolhas de Paz para cenas de entrevistas, vídeos domésticos e trechos de trabalhos dele, ou até mesmo filmadas apenas para o documentário, e que são de grande qualidade e precisão para a narrativa.

É necessário notar que este não é um documentário linear, de forma que ele não narra a história com começo meio e fim – ainda que todos estes momentos da vida de Babenco estejam presentes -, mas sim como um quadro da vida do diretor, e em particular da relação deste com o câncer, com o qual lutou desde 1986, época da produção de “O Beijo da Mulher Aranha”.

O longa faz por merecer sua premiação no Festival de Veneza como melhor documentário, e indicação para representar o Brasil na busca por uma vaga no Oscar, possuindo grande qualidade nos diálogos, fotografia, escolhas e trilha sonora, e é surpreendente que uma atriz de carreira fortemente ligada à Rede Globo – cujos filmes e novelas nem sempre são notórios pelo mérito artístico – crie uma peça tão incomum ao cenário do entretenimento, e mais próxima ao das artes. Como indicador da carreira vindoura da diretora, é um bom indício de que suas próximas obras serão de grande qualidade.

Em suma, “Babenco – Alguém tem que ouvir o coração e dizer: Parou” é uma obra que faz jus ao criador homenageado, uma rica reflexão sobre o câncer e a dignidade do fim. Um filme que talvez não agrade ao público comum, mas com certeza é interessante para os fãs de cinema artístico, em particular brasileiro, e do diretor.

por Ícaro Marques – especial para A Toupeira

*Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pela Imovision.

Filed in: Cinema

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