Crítica: “Beleza Oculta”

Vivemos em uma era na qual nada parece mais importante do que o tempo, já que apesar do considerável aumento de atividades rotineiras e profissionais, cada dia continua tendo “apenas” 24 horas. Mas, ao nos deparamos com a maior inevitabilidade de todas, não será tarde para perceber o que de fato importa no final?

Na sensível trama de “Beleza Oculta” (Collateral Beaty), dirigida por Davis Frankel, conhecemos a triste história de Howard (Will Smith), publicitário de sucesso que tem sua vida radicalmente mudada pela morte prematura de sua filha única, aos seis anos de idade. Sem conseguir se recuperar da perda, ele entra numa espiral de tristeza e isolamento, afastando-se da esposa e colocando em risco a agência de publicidade da qual é sócio majoritário.

Uma inusitada válvula de escape surge com uma ideia “simples”: escrever cartas destinadas a quem lhe causou tanta dor – o Tempo, o Amor e a Morte. Com textos curtos, porém cheios de significado, ele exprime o que se passa em seu coração em cada uma das três folhas de papel postadas como correspondências regulares (ainda que sem nenhum tipo de endereço).

A surpresa acontece quando os destinatários surgem com aparência humana para conversar frente a frente com o protagonista. A Morte (Helen Mirren) sob a forma de uma sensata senhora idosa, o Tempo (Jacob Latimore) como um jovem cheio de energia e fúria e o Amor (Keira Knightley) representado como uma moça delicada cujas lágrimas vertem com extrema facilidade.

O que parece ser uma história “fantástica” mostra-se bem mais complexa em seu cerne, uma vez que as personificações dos sentimentos são, na verdade, atores contratados por Claire (Kate Winslet), Whit (Edward Norton) e Simon (Michael Peña) – colegas de trabalho de Howard – a fim de fazê-lo questionar sobre sua sanidade mental e conseguir sua aprovação para a venda da empresa.

Mas, ao mesmo tempo em que é provável que o público enxergue isso como apenas um ato mesquinho por parte do trio, fica fácil entender as motivações não só profissionais, mas pessoais de cada um, a partir do momento em que suas próprias histórias são trazidas à luz.

Destaque para a sequência que mostra o protagonista buscando ajuda em uma espécie de grupo de apoio a pais que perderam seus filhos, liderado por Madeleine (Naomie Harris) – em cenas que devem tocar principalmente quem já perdeu alguém querido. A obra no geral é aquele tipo de produção em que a bagagem emocional / pessoal acaba tendo grande relevância na hora de viver a experiência cinematográfica.

Apesar de vários pontos bastante previsíveis, eu me surpreendi (de maneira muito positiva) com o final e saí da sala com uma sensação boa, de que ainda é possível – e cada vez mais necessário – ter esperança na vida.

Vale conferir.

por Angela Debellis

Filed in: Cinema

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