Crítica: “Belfast”

“A imaginação tem todos os poderes: ela faz a beleza, a justiça, e a felicidade, que são os maiores poderes do mundo”. As palavras do filósofo Blaise Pascal servem como um eficaz resumo de “Belfast” (Belfast), que chega aos cinemas brasileiros com sete indicações ao Oscar e a possibilidade real de conquistar algumas estatuetas na próxima cerimônia de premiação.

Kenneth Branagh escreve e dirige o drama semi-autobiográfico a partir de memórias de sua origem e entrega uma trama repleta de significado em cada pequeno detalhe. Tudo amplificado pela magistral fotografia de Haris Zambarloukos, que transforma a experiência de assistir ao filme na tela grande em algo ainda mais marcante.

Após cenas iniciais exibidas em cores e passadas em dias mais atuais, a narrativa retrocede até 15 de agosto 1969, ponto em que passa a ser mostrada em preto e branco e passa a girar em torno de Buddy (Jude Hill), um garoto de 9 anos que leva uma vida pacata na capital da Irlanda do Norte, Belfast.

Com uma rotina simples, o que mais encanta em sua jornada é a imensa capacidade de se deixar levar pela imaginação (o que seria de nós sem ela?), seja durante uma brincadeira em que assume o papel de um cavaleiro lutando contra um dragão, assistindo à Série Clássica de Star Trek – cujo acordes iniciais do tema de abertura já são suficientes para emocionar os fãs prévios da produção – ou lendo uma revista em quadrinhos de Thor e, provavelmente, imaginando-se em Asgard.

Se tudo parece vívido em seus pensamentos infantis, a vida real mostra outros contornos bem menos animadores, quando a vizinhança em que vive com sua família torna-se alvo de ataques por parte daqueles que não aceitam a possibilidade de católicos e protestantes viverem em harmonia, cada qual seguindo os preceitos religiosos que mais adequados lhe parecerem.

E as brincadeiras inocentes de crianças nas ruas dá lugar a ferozes ações de adultos que não se importam com as consequências de seus atos, contanto que se sintam confortáveis o suficiente para seguirem cometendo qualquer tipo de atrocidade.

Nesse cenário que oscila entre a calmaria e a tensão, Buddy tem como base a relação familiar com personagens cujos nomes não são revelados ao público – exceção feita a seu irmão, Will (Lewis McAskie) -, uma vez que atendem aos chamados singelos criados a partir do parentesco com o menino.

Ma / Mãe (Caitriona Balfe) e Pa / Pai (Jamie Dornan) formam uma casal que, por mais que pareça nitidamente se amar, encontra percalços no caminho, no que diz respeito ao futuro, uma vez que ele quer mudar-se com a família para Londres (onde trabalha para tentar sanar dívidas prévias) ou para Austrália e ela deseja permanecer na cidade em que nasceu – mesmo que esta não seja mais um lugar tão seguro.

Já Granny / Avó (Judi Dench) e Pop / Avô (Ciarán Hindis) são figuras cuja importância impacta a vida de todos que os rodeiam e que se tornam responsáveis pela maioria das cenas memoráveis do longa, em especial aquelas em que aparecem interagindo com Buddy. A sabedoria e paciência dos mais experientes mescladas à tradicional curiosidade infantil é a fórmula perfeita para conduzir o espectador a um caminho repleto de emoção, sorrisos, lágrimas e reflexões sobre a importância de se ter entes queridos ao lado.

Embora se passe em um palco de guerra, “Belfast” não envereda para esse gênero cinematográfico. Mais do que destacar embates violentos (cujas motivações permanecem inaceitáveis), em seus 99 minutos de duração, o filme consegue ser uma carta de amor à família, à cidade, à pureza da infância e àqueles que são merecedores de nosso amor durante a escrita de cada história pessoal.

Imperdível.

por Angela Debellis

*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Universal Pictures.

Filed in: Cinema

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