Crítica: “Bingo – O Rei das Manhãs”

Pensando numa escala global, os Anos 80 foram escandalosamente ricos na criação de ícones, nos mais diversos setores. De esportes a política, de comportamento a vestuário. Mas talvez nenhum tenha sido mais beneficiado que o entretenimento.

E foi assim que, no primeiro ano da década, estreou um programa na tv brasileira, que marcaria uma geração inteira e surpreenderia pela qualidade exibida nas telas e polêmicas geradas nos bastidores (profissionais e pessoais).

Fruto da marca americana criada por Alan Livingston em 1946, o palhaço Bozo encontrou sucesso nos mais diversos países. Sua adaptação nacional foi responsável por altos índices de audiência, que fizeram a atração permanecer no ar por até 8 horas diárias, durante 11 anos.

Vivido por mais de um ator, o personagem teve entre seus intérpretes o controverso Arlindo Barreto, cuja história chega aos cinemas através do surpreendente longa “Bingo – O Rei das Manhãs”, dirigido por Daniel Rezende. Vale destacar que quase todos os nomes foram alterados, devido a restrições contratuais com a marca em questão – apenas o da cantora Gretchen manteve-se inalterado.

Dito isso, o que se apresenta na telona é a trajetória do ator de pornochanchadas Augusto Mendes (Vladimir Brichta, em momento inspirado da carreira), que vê sua situação mudar ao conseguir o papel principal em um novo programa infantil dirigido pela severa Lúcia (Leandra Leal) – grande aposta de uma emissora que almeja aproximar-se de sua concorrente direta.

Ao dar um toque tipicamente brasileiro – ou como ele mesmo diz, “acrescentar pimenta” – ao aqui chamado ‘Bingo’, Augusto consegue agradar o público infantil – que não via o menor problema em interagir, por exemplo, com uma cantora (interpretada por Emanuelle Araújo) cuja base das canções e coreografias era a sensualidade. Uma diferença radical desde o primeiro roteiro escrito para o programa – uma tradução quase literal do usado nos Estados Unidos.

O sucesso meteórico também traz consigo o excesso do consumo de cocaína e álcool, o sexo desregrado, a piora na relação com a ex-esposa Angélica (Tainá Müller) – protagonista da novela principal da emissora rival – e o afastamento de seu filho único, Gabriel (Cauã Martins) que passa a ver no pai alguém que brinca com todas as crianças, menos com ele.

Momentos memoráveis como aquele em que, durante um telefonema, um telespectador mirim ofende o palhaço com um palavrão dito ao vivo em rede nacional dão lugar a situações críticas como a expulsão de Augusto de um evento, no qual seu programa havia acabado de sagrar-se vencedor, porque os seguranças não reconheceram o ator sem a maquiagem (uma das normas mais rígidas do contrato era a total ocultação de sua identidade real).

E os espectadores deixam as risadas de lado, para acompanhar a velocidade com que a carreira de apresentador de Augusto despenca ladeira abaixo, de maneira aparentemente irreversível.

Para quem foi criança da década de 1980, o filme é uma viagem regada à nostalgia, na qual é possível ouvir uma seleção bem eclética de músicas inesquecíveis, que vão de Doutor Silvana & Cia. a Echo and the Bunnyman, e rever uma parte importante do que ajudou a compor a área de entretenimento do período.

Destaque para a participação de Domingos Montagner, como uma espécie de mentor do protagonista e para os incríveis créditos iniciais que trazem imagens de fatos / pessoas relevantes da época, além da utilização de fontes mais ‘características’ nas cenas que necessitam de legendas. Para aproveitar ainda mais a experiência, não se esqueça de ajustar o tracking de seu videocassete!

Imperdível.

por Angela Debellis

Filed in: Cinema

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