Crítica: “Caminhos da Memória”

Nas palavras do escritor francês Anatole France, “O passado é a única realidade humana. Tudo o que é já foi”. Nas palavras do protagonista de “Caminhos da Memória” (Reminiscence), “A nostalgia nunca sai de moda”. Ou seja, por mais que tentemos desapegar de muitos fatos que ajudaram a escrever a história pessoal de cada um, a verdade é que o passado sempre se faz presente durante nossa jornada nesse mundo.

A trama dirigida e roteirizada por Lisa Joy se passa em um futuro que não se sabe exatamente o quão distante está, e mostra a cidade de Miami com uma imensa elevação de água, após os adventos de uma guerra que, junto aos efeitos do aquecimento global, causaram estragos aparentemente irreversíveis no clima e, por consequência, na vida em sociedade.

Nick Bannister (Hugh Jackman, sempre incrível em cena) é um ex-soldado da Marinha que agora atua como uma espécie de investigador particular da mente. Através de um equipamento conhecido simplesmente como “O Tanque”, ele acessa memórias passadas de seus clientes, que o procuram pelos mais diversos motivos: do desaparecimento de um molho de chaves, à saudade de um animal de estimação; do desejo de reviver o início de um casamento, à necessidade de relembrar uma relação à margem do aceitável pela sociedade.

Ao protagonista, cabe o papel de condutor, a fim de que as pessoas transitem apenas por caminhos já traçados – caso contrário, haveria a possibilidade de danos cerebrais – ao mesmo tempo em que há certo paralelo com algo que pode remeter ao voyeurismo, já que através do aparelho, Nick consegue “assistir” às lembranças mais íntimas em uma plataforma que simula os acontecimentos através de hologramas 3D.

Formando dupla com ele, está Emily Watts Sanders (Thandiwe Newton), que após os serviços prestados durante a citada guerra, agora também trabalha diretamente com esse acesso ao passado – que, além do efeito “recreativo” dos clientes usuais, também é usado como poderoso artifício em interrogatórios policiais.

Em uma inesperada sessão, Nick conhece a enigmática Mae (Rebecca Ferguson), por quem se apaixonada à primeira vista. Quando esta desaparece misteriosamente, após o estabelecimento de um relacionamento que se equilibra entre intensidade e delicadeza, Nick passa a se voltar para o passado de forma quase obsessiva para, não só para tentar reencontrá-la, mas a fim de entender suas motivações para abandoná-lo – o que acaba se transformando em um perigoso jogo de descobertas e conspirações.

Nesse ponto é que a produção ganha seus melhores contornos, alinhando com muita competência vários gêneros cinematográficos: é possível encontrar elementos de ficção científica, romance, ação, drama e suspense. Tudo conduzido pelo estilo noir que conta com uma belíssima fotografia (resultado do trabalho de Paul Cameron), que merece ser apreciada em seus detalhes em uma tela de cinema.

Hugh Jackman e Rebecca Ferguson repetem a parceria / química já vista em “O Rei do Show” e conseguem manter o interesse do espectador a cada nova reviravolta vivida por seus personagens. Assim como Thandiwe Newton, que entrega uma atuação que empolga e comove no mesmo nível.

Entre várias coisas a se destacar, cabe dizer que a cena que envolve Nick, o antagonista Cyrus Boothe (Cliff Curtis) e um piano, estão entre as melhores sequências de “Caminhos da Memória”. Assim como os atos finais – quando a história já está praticamente toda resolvida – que, de maneira deslumbrante, nos fazem retomar a sempre importante reflexão sobre até que ponto o passado pode / deve influenciar nosso presente.

Imperdível.

por Angela Debellis

*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Warner Bros. Pictures.

Filed in: Cinema

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