Crítica: “Colônia”, série original do Canal Brasil

Iniciando os episódios com uma música sombria e sinistra, e os dizeres “As personagens desta série são fictícias. Os fatos aconteceram realmente.”, seguido do artigo 5 da Declaração dos Direitos Humanos, que estabelece que ninguém deve ser submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano e degradante dos direitos humanos, Colônia estabelece bem o que o espectador encontrará a seguir.

A produção brasileira dirigida por André Ristum foi inspirada no livro Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex, que conta a história do Hospital Colônia, fundado em 1903 e desativado na década de 1980, em Barbacena, Minas Gerais.

O hospital ganhou a fama do título do livro, pois os pacientes eram mantidos em condições sub-humanas. Ainda assim, a história do Colônia é pouco conhecida pelos brasileiros e a intenção do diretor era a de justamente conta-la ao grande público.

Dirigido por André Ristum, o seriado tem dez episódios de cerca de meia hora (os quais fomos convidados a assistir para a produção desse texto) e conta a história de Elisa, uma jovem de vinte anos que foi mandada pelo pai para a instituição. Após a garota se recusar a casar com um rico fazendeiro, bem mais velho que ela, e engravidar de um namorado que o pai não aprovava, ela é mandada à força para o Hospital Colônia.

Nas primeiras cenas já percebemos a aflição de Elisa, que é colocada contra a vontade em um vagão de trem, pelo capataz de seu pai, sem saber para onde estava indo. No vagão, que ficou conhecido como “trem de doido”, trancado e escuro, há várias outras pessoas com o mesmo destino.

Ao chegar ao hospital, um prédio antigo e mal cuidado, ela se depara com um lugar que mais parece uma prisão do que um hospital. Aos poucos, a personagem interpretada muito bem por Fernanda Marques, vai percebendo que poucas pessoas ali têm realmente doenças mentais, e que não há preocupação em dar um diagnóstico certo a ninguém.

Elisa percorre um caminho interessante, da confusão e esperança, para a compreensão, revolta e desespero. Mesmo em um cenário deprimente e perturbador, encontra amizade em outros pacientes internados, como a prostituta Valeska (Andréia Horta), o gay Gilberto (Arlindo Lopes), o alcoólatra Raimundo (Bukassa Kabengele) e Dona Wanda, interpretada de uma forma muito tocante pela atriz Rejane Faria.

 Ao correr dos episódios, vamos conhecendo mais sobre o funcionamento do local, os maus tratos, os absurdos e a rotina difícil dos internos que ali tentam sobreviver, após serem abandonados, esquecidos e deixam de ser tratados como seres humanos. Lá são deixadas pessoas consideradas indesejadas pela sociedade na época, como gays, prostitutas, mendigos, opositores políticos, jovens grávidas e também aqueles com algum tipo de doença mental.

Com a chegada de figuras contrárias ao Regime Militar que vigorava na época, fica ainda mais claro como o Colônia era um depósito de pessoas, onde aqueles que tinham poder despejavam aqueles que, de alguma forma, se opunham ao governo ou aos ideais conservadores do período.

Os personagens, tanto do lado dos funcionários do hospital, quando do lado dos pacientes, são muito bem construídos, como o médico desiludido que batalha com a culpa de trabalhar no local, uma enfermeira que fica numa linha tênue entre o que é certo e errado, e uma mulher que  vive há trinta anos internada no hospital, empenhada em sobreviver e fazer o possível para que seus amigos sobrevivam também.

A direção é conduzida com eficiência e as atuações são boas e emocionantes, e podem fazer o espectador vir às lágrimas (principalmente nos episódios 8 e 9).  Todos os capítulos são em preto e branco, escolha que dá um tom um pouco aterrorizante à obra e ajuda a contar melhor a história daquelas pessoas. Segundo o diretor, ele fez tal escolha, porque quando imaginava a série, não conseguia enxergar de outra forma, pois a vidas dos personagens parecia sem cor, sem brilho. “Não fazia sentido rodá-la colorida”, afirma.

Colônia mostra os horrores de um capítulo triste da história brasileira, e emociona com personagens bem construídos e cativantes. Não é uma obra leve, ou para aqueles que querem apenas relaxar, mas vale muito a pena ser assistida.

O seriado estreia nesta sexta-feira, hoje, 25 de junho, às 21h30 (com horários alternativos na madrugada de sábado/domingo, à 1h55, e madrugada de segunda/terça, à 0h55), no Canal Brasil e também estará disponível para os assinantes da plataforma Globoplay.

por Isabella Mendes – especial para A Toupeira

Filed in: TV

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