Crítica: “Cruella”

A Disney possui uma das mais icônicas galerias de vilões ficcionais, com alguns, inclusive, sobrepondo-se aos “mocinhos” em popularidade. Embora faça parte de um dos grandes clássicos animados da marca, Cruella De Vil nunca esteve entre os meus favoritos, devido a minha total repulsa por sua motivação na história de “Os 101 Dálmatas”, lançado em 1961: confeccionar casacos com a pele dos cachorros.

Tal obsessão também foi explorada de maneira explícita nas versões em live-action de 1996 e 2000, com Gleen Close no papel, que se tornou o rosto definitivo da personagem. Pelo menos, até a estreia de “Cruella”, filme que cria uma história de origem para a vilã.

Quando tal produção foi anunciada, não me empolguei, mas após assisti-la, seria injusto não aplaudir o excelente trabalho realizado pela equipe de cenografia e pela figurinista Jeany Beaven, que entregam resultados primorosos ao roteiro de Dana Fox e Tony McNamara, no qual a moda é um elemento de fundamental importância.

A trama começa em 1964 e mostra Cruella De Vil (Emma Stone), quando ainda era criança e atendia por seu nome verdadeiro, Estella (nessa fase, vivida por Tipper Seifert – Cleveland). Já nesse ponto é possível perceber que a peculiar personalidade da menina flerta com uma rebeldia que beira o exagero – ainda mais pela criação tranquila proposta por sua mãe, Catherine (Emily Beecham).

Um inesperado fato muda a vida da garota que se vê sozinha e perdida nas ruas de Londres, local em que encontra aqueles que serão seus parceiros pelos próximos anos: Horácio e Gaspar (Joseph MacDonald e Ziggy Gardner nessa fase e Paul Walter Hauser e Joel Fry, quando adultos), dois meninos com idade próxima à dela, que sobrevivem furtando transeuntes – prática que também passará a fazer parte da vida de Estella.

Uma década se passa, mas não é suficiente para apagar o sonho da agora crescida personagem, de se tornar uma estilista famosa. E quando surge a oportunidade de fazer parte do quadro de funcionários de uma das mais prestigiosas lojas de vestuário da cidade (ainda que não da maneira desejada), tal fato ajuda a abrir as portas para sua chegada ao ateliê da estilista mais celebrada da época, a Baronesa Von Hellman (Emma Thompson).

É a partir do encontro dessas duas figuras que a real personalidade (por anos suprimida de maneira consciente e assertiva) de Cruella vem à tona e que temos uma boa dose de vilania em tela. Mas, ainda assim, a opção por humanizar sua história, tentar dar um motivo para sua maldade, faz com que muito se perca pelo caminho.

O trio de antagonistas da animação original é um dos mais desprezíveis até os dias atuais, com intenções expressadas sem nenhuma sutileza, preocupados apenas com seus anseios pessoais (sejam eles um casaco ou uma recompensa por um trabalho sujo). De repente, o que o longa dirigido por Craig Gillespie oferece ao público é uma visão “mais aceitável” dos personagens, optando por colocá-los como pessoas que não foram agraciadas com sorte ou privilégios e, por isso, acabaram enveredando para o mal – mas que ainda são capazes de demonstrar alguma empatia.

Assim como nos mais aclamados desfiles do seleto mundo da moda, “Cruella” é feito de momentos: alguns, excepcionais (em sua maioria envolvendo a apresentação de figurinos que vão de belíssimos a surpreendentes), enquanto outros parecem apenas deslocados da narrativa. Unindo tudo, está a trilha sonora repleta de sucessos da década de 1970, que vão de The Doors e Supertramp, a Nina Simone e The Clash – contando ainda com as faixas originais de Nicholas Britell e a canção-tema de Florence + The Machine.

Entre o reduzido elenco animal, destaque para Buddy (sem raça definida) e Wink (chiuaua), cãezinhos adoráveis que ajudam os farsantes em seus golpes. Apresentados como seguranças da Baronesa, os únicos três dálmatas que fazem parte da história acabam parecendo excessivamente agressivos, graças a comandos infligidos a eles, o que tira um pouco da graciosidade que é a marca da animação que têm animais dessa raça como protagonistas.

No fim de 134 minutos (há uma cena adicional entre os créditos finais), se você desconhece a personagem, deve se empolgar com essa nova proposta. Mas, se ela já lhe for familiar, poderá perceber como é impensável tal ideia de torná-la menos vilanesca – a menos que fosse a visão de algum universo à parte, o que não é caso.

por Angela Debellis

*Título assistido em sessão regular de cinema.

Filed in: Cinema, TV

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