Crítica: “Dor e Glória”

Mais um filme do diretor e roteirista espanhol Pedro Almodóvar. O 21º da sua carreira, Dor e Glória” (Dolor y Gloria) é uma realização tipicamente sua, aliás, autobiográfica. Ele conta sua vida, principalmente sua infância e o presente. Mostra ao espectador os primeiros anos, de vida pobre, quase miserável, a dor e sacrifícios – em especial da sua mãe – para ter uma vida melhor.

Nesse relato a dor está presente nos mais diversos modos, psicológicos e físicos. A perturbação, o sofrimento, os desgarros próprios de um ser forte e fraco ao mesmo tempo.

As quase duas horas de duração se concentram em temas que lhe resultam decisivos ao protagonista: a homossexualidade, o anticlericalismo (neste caso, bem mais leve que em títulos anteriores), as drogas lícitas e ilícitas, leves e pesadas, a religião e o ateísmo, o cinema e o teatro, as relações pessoais muito peculiares, etc.

Assuntos antigos, recorrentes, em Almodóvar, apresentados em meio a um estilo bastante näif (infantil, ingênuo) também reconhecível: cores gritantes, desenhos floridos nas roupas e objetos, amontoado de coisas nos ambientes. Por momentos é excêntrico e quase mórbido. Por outros, tem algumas pitadas de humor.

Algumas considerações sobre cinema (as imagens podem ser as mesmas mas, depois de um tempo, o espectador pode mudar sua maneira de interpretá-las); sobre teatro (“não é melhor ator aquele que chora, mas o que controla suas lágrimas”); sobre o drama dado pela distância entre o que se quer e o que se pode fazer na vida; sobre a força da vontade para deixar para atrás o tédio (ajuda muito mas, às vezes, é insuficiente) e sobre a velhice (a importância de ocupar o cérebro em modo positivo). Também contêm cenas com alguma emoção.

Com todos esses elementos, “Dor e Glória” possui um fio condutor, porém, ao mesmo tempo, resulta uma colcha de retalhos. Seu forte está, sem dúvidas, nas atuações. Há um trabalho excelente de Antonio Banderas (ganhador no Festival de Cannes), uma muito boa tarefa do argentino Leonardo Sbaraglia (que tem uma prolífica carreira prévia), e as atrizes Cecilia Roth (também argentina, muito conhecida) e Julieta Serrano (veterana espanhola), dentre outros.

E o par que representa profissionais da saúde (Eva Martín, Pedro Casablanc), sóbrios e precisos. Um detalhe quase irônico é que Agustín Almodóvar, irmão do diretor, interpreta um sacerdote. Sem esquecer Penélope Cruz, que tem o papel de mulher magoada e lutadora. Tais atuações estão pautadas por uma forte exigência como é a de ter abundância de primeiros planos dos rostos. As emoções são primordiais em “Dor e Glória”.

Em resumo: filme doloroso, autobiográfico e com atuações destacáveis, em especial de Antonio Banderas. Por último: pode ser muito interessante prestar atenção à cena inicial e a sequência final, para relacioná-las.

por Tomás Allen – especial para A Toupeira

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