Crítica: “Fassbinder: Ascensão e Queda de um Gênio”

Diz a lenda que a qualidade da obra de um artista é proporcional aos seus sofrimentos, sejam interiores ou exteriores. Isto não é necessariamente verdade, dado que alguns levam uma vida bem tranquila e são talentosos, com obras que perduram no tempo. Porém, se há alguém que comprova esta regra é o famigerado diretor alemão Rainer Werner Fassbinder.

Fassbinder é talvez um dos mais proeminentes cineastas do chamado “Novo Cinema Alemão”, que floresceu na Alemanha dos anos 1960/1970, e extremamente prolífico em sua curta vida, viria a morrer com 36 anos, tendo criado 44 obras, tanto para cinema quanto televisão, em apenas 15 anos, muitas das quais são aclamadas pela crítica, mesmo quando não na própria época, e exemplares maiores do cinema artístico da história.

Sua vida, porém, foi curta por um motivo: o diretor tinha profundos problemas psicológicos, os quais descontava no álcool e drogas, fossem elas legais – barbitúricos – ou ilegais – cocaína, motivo até de sua morte. Seus amores e relacionamentos também eram extremamente destrutivos, ora ele sendo o abusado, ora sendo o abusador, e sempre resultando em enormes estragos para sua vida, bem como para os outros ao seu redor.

“Fassbinder: Ascensão e Queda de um Gênio” (Enfant Terrible) é um retrato desta breve e magnífica carreira, em particular da vida pessoal do cineasta, contando com roteiro e direção por Oskar Roehler, já experiente em criar filmes que tratam sobre cinema, com obras como “Jud Süss – Film ohne Gewissen”.

A narrativa se desenvolve a partir do ponto de vista de três personagens que representam um aspecto da vida do cineasta: Fassbinder (Oliver Masucci) é o lado emocional do próprio, sempre se apaixonando e se desapaixonando, e que acaba por ferir todos ao redor com seus rompantes; o real Kurt Raab (Hary Pinz), frequente parceiro do cineasta, é o lado artístico, com quem sempre confidencia as ideias e inspirações, das mais normais às mais loucas, sempre as alimentando; e a fictícia Gudrun (Katja Riemann) sua consciência, sempre se aproximando, mas acaba por se afastar quando este toma atitudes exageradas e agressivas.

Todos os cenários são relativamente simples, minimalistas, na maioria das vezes apenas panos pintados como paredes e paisagens, sendo constantemente reutilizados, apenas trocando os objetos de cena, ou pintando novos elementos. A importância disto não está fazer locações realistas, mas evocar o local em que se passa a ação, limitado pelos itens de um estúdio e/ou palco.

Estes dois elementos são, cada um a sua maneira, uma homenagem à carreira de Fassbinder no teatro: os cenários são típicos das produções teatrais, onde os orçamentos e espaços são limitados; as personalizações dos aspectos da vida de Fassbinder são feitas para que não se jogue todo peso narrativo em cima das imagens, mas também não precise de monólogos para a representação dos pensamentos e ideias deste, algo também típico dos palcos, e não do cinema.

Desta forma, “Fassbinder: Ascensão e Queda de um Gênio” procura ser mais estiloso do que realista, algo que o diferencia dos demais filmes biográficos, que preferem a rota oposta. Para fazer jus à carreira de um cineasta tão não-convencional como o retratado, seguir um caminho óbvio seria um considerável desserviço.

As atuações estão excelentes, mas vale elogiar em especial Oliver Masucci. Sua atuação está assombrosa, representando um Fassbinder tanto desprezível quanto carismático, completamente decadente, indo de extremos em seus emocionais, mas sem perder a seriedade, ou parecer dois personagens diferentes.

O filme, no entanto, não é algo fácil de assistir: a constante decadência e violência física e emocional de Fassbinder pode ser difícil para quem tem coração fraco ou se ofende fácil. Além disso, a trama apesar de ser linear ainda é complexa de se acompanhar, dada a natureza acelerada da obra, pulando de fase em fase da vida do protagonista.

“Fassbinder: Ascensão e Queda de um Gênio”, que estreia na plataforma de streaming Cinema Virtual, é interessante para quem procura um cinema mais artístico e ainda não teve a oportunidade de explorar a obra do cineasta epônimo, pois com certeza estimula a descobri-la. Para quem é fã dele, também é recomendado, dado o bom nível deste filme, além de gerar grandes insights sobre a vida e morte do profissional.

por Ícaro Marques – especial para A Toupeira

*Título assistido via streaming, a convite da Elite Filmes.

Filed in: BD, DVD, Digital

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