Crítica: “Greta”

Greta Garbo é uma das maiores estrelas do cinema. Ela é referência não só por sua beleza, mas também pela qualidade das obras em que trabalhou entre os anos de 1920 e 1940, antes de se aposentar no auge de sua carreira. E ela é a grande paixão de Pedro (Marco Nanini), um enfermeiro septuagenário que pretende salvar a vida de sua melhor amiga e acaba se encantando por um transgressor nesse percurso.

Para começar, “Greta”, o longa dirigido por Armando Praça e estrelado por Nanini tem diversas nuances, precisa ser entendido (ou não) em todos os âmbitos de sua complexidade. Um enfermeiro de 71 anos, gay, que trabalha em um hospital público superlotado e sucateado. Sua melhor amiga, Daniela (Denise Weinberg), está em seus derradeiros dias e se recusa a findar a vida em uma cama de enfermaria.

Logo nas primeiras cenas já esbarramos em problemas muitos reais, Daniela que é uma mulher transexual, ainda não tem seu nome social e sua identidade de gênero aceita e é destinada à ala masculina do hospital, onde ela obviamente, se recusa a ficar.

Jean (Démick Lopes) dá entrada escoltado pela polícia após cometer um crime passional: assassinou outro homem em uma briga. Mesmo que esteja acompanhado pela polícia, Pedro trama um plano e o ajuda a fugir – como ele não tem aonde ir, o enfermeiro concorda em abrigá-lo em sua casa por uma noite, que acaba se tornando um pouco mais.

O primeiro longa de Armando começou a ser pensado em 2008, a partir do momento em que assistiu a uma montagem de “Greta Garbo, quem diria acabou no Irajá”, uma comédia que também mostrava um senhor que se apaixonava por um garoto mais novo. “Por que rir do desejo mais íntimo de uma pessoa, que neste caso é o de amar e ser amado?” – foi o que “incomodou” o diretor que se inspirou na peça e deu um toque mais real e dramático ao fato.

A obra traz com muita naturalidade o nu frontal masculino – que ainda é um tabu, quase que mundial – e conta com cenas de sexo (explícito). Ainda assim, não beira a grosseria, é mais uma peça do intenso quebra-cabeça que é a vida de Pedro.

É interessante observar a relação de Nanini com o próprio corpo, que se mostrou muito confortável durante as cenas, e na coletiva de imprensa ressaltou que o roteiro de confiança e o profissionalismo da produção o fizeram se entregar ao trabalho.

As locações em sua maioria são internas, e o que chama a atenção – talvez por esse anseio do diretor de mostrar o corriqueiro: não há nada de luxuoso, um apartamento de classe média, que poderia ser habitado pela maior parte das famílias brasileiras, todos os atores são de aparência um tanto como “comuns”, dando mais espontaneidade à trama.

As cenas são dotadas de uma tensão que em alguns momentos chegam a ser angustiantes, como se pudéssemos sentir Pedro e suas nuances. Há uma cumplicidade louvável entre Jean e seu bem feitor.

“Greta” é uma história que certamente poderia ser vivida por qualquer um, independente de orientação sexual, entretanto é a história de um homem gay, e isso não pode nem deve ser anulado – a busca de um ser por se completar, um ser que se entende e que não aceita menos do que o que merece. Natural e denso, complexo e coerente. Armando conduziu o longo de maneira em que dezenas de reflexões – sejam elas sociais ou pessoais – viessem à tona.

Um filme para assistir livre de todo e qualquer preconceito, ou talvez seja uma oportunidade cósmica para livrar os espectadores de algum pensamento preconcebido que ainda exista perdido em algum lugar. Vale muito prestigiar.

por Carla Mendes – especial para A Toupeira

Filed in: Cinema

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