Crítica: “Licorice Pizza”

Existem momentos em que contradições podem ser vistas, mais do que como apenas elementos problemáticos, como algo que pode acrescentar às nossas trajetórias. Esse é o caso de “Licorice Pizza” que, com três indicações ao Oscar e através de inúmeras disparidades, torna-se uma das produções mais interessantes dos últimos tempos.

A narrativa se passa em 1973 (ano especificado através do pôster que mostra a estreia no cinema local de “Com 007 – Viva e Deixe Morrer”), em San Francisco Valley, noroeste de Los Angeles e traz às telas fatos baseados em histórias vividas pelo próprio e por amigos do diretor / roteirista Paul Thomas Anderson – o que dá um ar adequadamente verossímil ao que é mostrado.

Sob uma majestosa trilha sonora – que conta com nomes como Nina Simone, David Bowie, The Doors e Chuck Barry, além de faixa título de Johnny Greenwood, do Radiohead – acompanhamos a história de Gary Valentine (Cooper Hoffman) e Alana Kane (Alana Kane), cujos caminhos opostos à primeira vista, acabam se cruzando de maneira singela e surpreendente.

Prestes a completar 16 anos, Gary é um bem sucedido ator mirim, que começa a encarar o fato de estar adentrando àquele incômodo período em que se é velho demais para algumas coisas, porém, muito jovem para outras. Mas, o que poderia ser uma dificuldade, acaba subjugado pelo espírito empreendedor do rapaz, que parece disposto a se arriscar pelos mais variados ramos de negócio – seja abrindo uma loja de colchões d’água ou uma casa de jogos de fliperama.

Do outro lado está Alana, que, aos 25 anos – e sem nenhuma perspectiva palpável –, sente que o tempo corre contra ela. Trabalhando como assistente de fotógrafo durante a realização de fotos para o anuário de alunos do 2º grau e morando com os pais e irmãs, a jovem parece carregar mais peso do que deveria ao encarar as consequências advindas de uma maturidade que lhe é imposta de qualquer maneira.

É o encontro desses personagens e tudo que eles têm a ensinar /aprender com a relação que desenvolvem, que dá o tom perfeito ao filme. Gary com a inabalável certeza de que encontrou a mulher com quem vai se casar; Alana transitando entre o encantamento promovido pela ânsia tão trivial à maioria dos adolescentes e as dúvidas sobre o quão poderia ser julgada como “estranha” sua proximidade com pessoas de menos idade.

Acompanhar o desenrolar dessas histórias é um deleite durante 133 minutos de duração do longa. Tudo acontece de maneira a aproximar os personagens do público e é fácil se deixar levar pela imersão proporcionada pelos exímios trabalhos de cenografia e fotografia da produção que, para aprimorar a viagem à década de 1970, foi filmada em 35mm.

Com o óbvio destaque ao show de atuação dos protagonistas (ambos estreantes no cinema), também vale mencionar pelo menos duas participações especiais: Sean Penn como o veterano astro de Hollywood, Jack Holden (cujo personagem parece preso à necessidade de estar sob os holofotes a qualquer custo); e Bradley Cooper, interpretando o cabeleireiro das celebridades / namorado de Barbra Streisand / produtor, John Peters (em uma das atuações mais divertidas e alucinantes que já vi).

Seria injusto resumir “Licorice Pizza” a uma “simples” história sobre o primeiro amor. Com o roteiro tendo tantas camadas que se completam a cada momento, a obra consegue ser tão ampla quanto seu título que faz alusão a três coisas muito diferentes: uma loja de discos da época da juventude do diretor na Califórnia, a gíria usada para discos de vinil (itens tão marcantes na indústria de entretenimento da década de 1970) e, principalmente, a possibilidade de se misturar ingredientes tão destoantes – o salgado da pizza ao doce do alcaçuz – e descobrir as maravilhas desse resultado.

Imperdível.

por Angela Debellis

*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Universal Pictures.

Filed in: Cinema

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