Crítica: “Luta por Justiça”

Quando uma arbitrariedade é contada na narrativa de alguma obra – seja cinematográfica, literária ou televisiva – quem não compactua com tal ato já se sente imediatamente incomodado (ou pelo menos, assim o deveria). E, quando tais produções têm histórias fundamentadas em fatos reais, tal sentimento se amplifica, afinal, dói saber a regularidade com que fatos execráveis acontecem na vida real.

Em “Luta por Justiça” (Just Mercy), longa dirigido por Destin Daniel Cretton – que também é um dos roteiristas, ao lado de Andrew Lanham – somos apresentados a Walter “Johnny D.” McMillian (Jamie Foxx), lenhador, pai de três filhos, condenado à execução na cadeira elétrica, pelo assassinato brutal uma jovem de 18 anos. Como agravantes, os fatos de haver o depoimento de uma suposta testemunha ocular e a disparidade de cores de pele: enquanto o acusado é negro, a vítima é branca.

Ainda que seja completamente nítida a injustiça no que diz respeito ao julgamento de Johnny D., sua situação parece irreversível, até a chegada de Bryan Stevenson (Michael B. Jordan), recém-formado advogado que abre mão de uma carreira carimbada por seu diploma obtido em Harvard, para cuidar de casos ignorados pelo poder judiciário. Vale dizer que o filme é baseado no livro homônimo, escrito pelo próprio Bryan.

Ao mudar-se, no final dos anos de 1980, para o Alabama – estado americano conhecido por seus gravíssimos problemas com relação à segregação racial – o jovem advogado se vê diante de um quadro bastante desfavorável, uma vez que, por também ser negro, acaba sendo tratado de maneira problemática, encontrando ainda mais dificuldades para realizar seu já espinhoso trabalho.

De início, o apoio chega através da advogada local, Eva Ansley (Brie Larson), que vai trabalhar com ele como diretora de operações no centro jurídico aberto pelo protagonista, a fim de atender casos de condenados ao corredor da morte – mesmo diante de números desanimadores: segundo estatísticas locais, nenhum tenha conseguido ser absolvido a tempo de escapar da execução.

Embora acabemos conhecendo outras duas tramas paralelas – a de Herbert Richardson (Rob Morgan) veterano da Guerra do Vietnã com graves problemas psicológicos, que confeccionou uma bomba caseira e matou uma jovem e Antony Ray Hinton (O’Shea Jackson Jr.), condenado por duplo homicídio, graças aos dados incorretos de um teste de balística falho e por “ter a aparência de quem cometeria um crime”, a história tem como centro Johnny D. e as incongruências que marcam sua trajetória até a prisão.

Conforme se passam os 136 minutos de filme, as lágrimas chegam com mais facilidade. Porque não dá para ficar impassível diante do que vemos na tela. São pessoas que não se preocupam com a dor do próximo, outras que só visam o benefício próprio e ainda quem nem mesmo reconheça como válida a tentativa de seus semelhantes de lutar por uma vida justa. É um retrato tão cruel quanto verdadeiro da sociedade, ainda em dias atuais.

Como já era de se esperar em uma produção baseada em fatos reais, durante os créditos finais são exibidas imagens (fotos e vídeos) dos personagens, assim como informações sobre o que lhes aconteceu após os eventos narrados no longa. Talvez seja o momento mais pungente, quando realmente sentimos que aquilo tudo aconteceu, que toda dor, todo medo e desespero foram causados de verdade e quando o maior nó na garganta se forma, por lembrarmos que vivemos em um mundo onde uma imprescindível sociedade igualitária e justa, ainda parece um sonho distante.

Vale conferir (e refletir).

por Angela Debellis

*Filme assistido durante Cabine de Imprensa promovida pela Warner Bros. Pictures.

Filed in: Cinema

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