Crítica: “M-8: Quando a Morte socorre a Vida”

Os numerosos casos de jovens negros mortos e desaparecidos são um constante lembrete de como o racismo se faz presente em várias camadas de nossa sociedade. E o questionável descaso da justiça em solucionar tais crimes nos mostra como esse racismo é institucionalizado no Brasil.

Apoiado nessa triste realidade que assola a sociedade brasileira, “M-8: Quando a Morte socorre a Vida” constrói uma trama crítica com pitadas de drama e suspense.

No filme acompanhamos Maurício (Juan Paiva), que acabou de ingressar na faculdade de medicina. Apesar de se mostrar um aluno exemplar logo no início da trama, logo se depara com a triste realidade de ser o único aluno negro presente, fora os corpos a serem dissecados em estudos no decorrer de seu ano letivo.

Em meio a esse cenário, o protagonista percebe que o racismo ora se esconde, ora se abre nas atitudes dos personagens brancos que permeiam a trama. Talvez o fator que mais incomoda nos comportamentos dessas figuras, é o fato de que elas retratam uma desconfortável realidade: não é improvável achar que qualquer pessoa já se deparou com alguém que se sente ameaçado em bairros mais humildes ou que fica tenso quando percebe que pessoas negras estão se aproximando. Esses comportamentos dentro da narrativa ganham outro peso quando nos vemos na pele de Maurício.

Outro elemento de extrema importância para a história é a religiosidade dos personagens, aqui representada como um sincretismo entre uma religião de matriz africana e o catolicismo, fusão essa tão comum entre vários brasileiros.

As práticas religiosas são apresentadas com muito respeito e servem como ponte para Maurício se aproximar das suas raízes e compreender melhor a responsabilidade com outras pessoas que compartilham de sua etnia.

A trilha é utilizada com maestria e como uma poderosa ferramenta narrativa, transitando em ritmos como Rap e Funk para descrever a realidade de Maurício, com letras que nos contextualizam dos pensamentos e anseios do personagem principal.

Outro elemento cirurgicamente inserido na trilha são os tambores característicos de religiões de matrizes africanas, que aqui funcionam como um marcador de epifanias sobrenaturais, dando um toque brasileiro ao suspense que a história pede.

“M-8: Quando a Morte socorre a Vida” é muito mais do que um título de drama e suspense, é justamente a obra que o Brasil precisa hoje, que escancara o racismo institucional, o descaso com as vidas negras e a negligência das instituições a essas questões. O que realmente entristece é saber que uma trama tão tensa como essa, poderia se encaixar facilmente no cotidiano de muitos jovens negros como Maurício.

por Marcel Melinsk – especial para A Toupeira

*Filme assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pela Paris Filmes.

Filed in: Cinema

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