Crítica: “Midsommar – O Mal não espera a Noite”

Para as sociedades rurais o solstício de verão é um momento de grande celebração, no qual se celebra o semeio da temporada anterior e a vindoura temporada de colheita. Os povos pré-industriais durante este período do ano desenvolveram rituais para os deuses, para que estes lhes concedessem uma próspera e farta colheita. Essas tradições tomavam várias faces, porém várias delas foram perdidas com a expansão do cristianismo. Ainda assim, o costume de se comemorar o solstício se manteve, desta vez com a cristianização das celebrações com as festas de São João Batista e São Pedro – em Portugal também Santo Antônio – conhecidas no Brasil como festas juninas.

Por sua vez, com o passar do século XX, o aumento da liberdade religiosa, e por consequência o secularismo e o paganismo renascido, as tradições do solstício de verão voltam às suas raízes. Alguns exemplos: os sakha no norte da Rússia que comemoram seu ano novo conforme as tradições antigas; Na Ucrânia a Івана Купала – Ivana Kupala – ou Noite de São João, que apesar de manter o nome em várias partes do país observam-se as tradições pagãs; na Alemanha os neo-pagãos comemoram a Litha; por fim na Suécia, a tradicional dança ao redor do midsommarstång – mastro erigido especialmente neste período – que sobrevive à cristianização da região.

Solstício de verão também tem um outro nome, que não sua tradução literal: Midsommar.

“Midsommar – O Mal não espera a Noite” (Midssomar) é o novo trabalho do diretor Ari Aster. O filme se passa no feriado supracitado, quando um grupo de jovens decide participar das festividades em uma aldeia no coração da Suécia, terra natal de um deles. No entanto, acontecimentos estranhos farão com que o que seriam férias pacíficas se tornem um pesadelo.

Talvez uma das maiores qualidades do longa seja sua atenção aos detalhes e símbolos. Cada ângulo de câmera, vários objetos do cenário e até mesmo atitudes dos atores têm um significado mais amplo do que normalmente em outros filmes teria. Várias vezes, estes servem como prenúncio do que virá, outras vezes como uma forma de reforçar as emoções pensamentos e sensações dos personagens. Por sua vez, a produção não faz referência direta a esses objetos e momentos, diferente do comum em títulos do mesmo gênero.

Além disso, há um clima intenso de tensão. Uma forma de transmitir isso é o fato de se focar continuamente no estado psicológico da protagonista Dani (Florence Pugh): uma moça em crise, que se vê presa a um culto estranho. O uso constante de drogas, particularmente ritualísticas, faz com que a realidade seja questionável e irreal ao mesmo tempo.

Outra forma de manter a tensão é semelhante ao filme “Insonia”, de Cristopher Nolan, com “Midsommar” se passando em uma região do norte na qual o sol permanece visível, iluminando a noite, ainda que de maneira menos intensa. Sendo assim, instala-se uma estranha sensação de atemporalidade, de descolamento do fluxo do tempo, que torna a situação estranhamente tensa e incômoda, e foge do mais clássico clichê do terror: se passar em ambientes escuros ou à noite.

Ainda que fuja do clichê clássico, o filme acaba caindo em outros, como os estranhos acontecimentos que vão perseguir cada um dos jovens, e que não posso comentar por funções de spoiler. Há ainda o uso de uma comunidade estranha, na qual os protagonistas se veem em conflito com uma cultura completamente à parte de sua própria – um recurso usado desde pelo menos o século XIX nos contos de terror.

Por sua vez, o quesito técnico mantém uma qualidade incomparável. Também diferente de vários filmes de terror, “Midsommar” opta não pela feiúra para causar tensão, mas pela beleza. Seja nos cenários ao ar livre – ou quando envolvem cenários construídos, nos quais a beleza se dá em suas pinturas. De ambos os modos, a configuração da fotografia em seus ângulos e enquadramentos torna uma experiência visual muito interessante.

A atenção aos detalhes, no entanto, não para no departamento visual. A narrativa auditiva, ainda que menos prevalente, é tão importante quanto a visual. A trilha sonora é um fator fundamental também, alternando entre bela e tensa, com uso particular de texturas de acordes em ambas. Ainda que esta recaia em alguns dos clichês, existem certos momentos de inversão da música, e o que seriam momentos de grande tensão e horror, têm melodias tranquilas e pacíficas – e o mesmo também é verdadeiro para o inverso.

Quanto às atuações dos protagonistas, Florence Pugh merece crédito por trazer à cena as alterações de humor de uma mulher presa em um relacionamento obviamente tóxico e traumatizada, ainda que com alguns exageros. Jack Reynor, por sua vez, tem uma atuação que parece estranha e exagerada, mas que se encaixa no personagem de maneira inesperada.

“Midsommar – O Mal não espera a Noite” é um filme intrigante. Com seu constante clima estranho e tenso, é muito recomendado para os fãs de terror, em especial aqueles que preferem uma mistura entre o gráfico e o psicológico.

por Ícaro Marques – especial para A Toupeira

 

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