Crítica: “Ninguém sabe que estou aqui”

Com uma ideia original, excelente fotografia e música, boas atuações e um desenrolar bem concebido e editado, “Ninguém sabe que estou aqui” (Nadie sabe que estoy aqui) resulta em uma grata surpresa. Porque em São Paulo não estamos acostumados a assistir produções chilenas, como é esta.

Além disso, os títulos dessa origem nestas últimas décadas (por exemplo “No”, “El pacto de Adriana”), na sua maioria tem um cunho político – em outras palavras, contra a ditadura pinochetista.

E é sabido que filmografias pouco habituais despertam certa resistência, até desconfiança. Agora, com a impossibilidade de ir às salas de cinema, o “streaming” nos induz a procurar novas opções. Às vezes, o resultado pode ser muito gratificante.

“Ninguém sabe que estou aqui” é a história de Memo (Jorge García), um menino que gostava de cantar e o fazia muito bem. Começava a vincular-se com a televisão, porém para o produtor não tinha uma figura adequada para triunfar. Então, faz uma proposta insólita ao pai de Memo: poder utilizar a voz do menino. Obviamente, para que pareça ser de outra pessoa.

A partir daí o relato vai a um local apartado, muito belo, porém bastante isolado. Lá o protagonista tentará lidar com a lembrança daquela possibilidade frustrada. Não será fácil nem simples. Os personagens e situações se sucederão e o filme adquirirá características densamente dramáticas.

As inúmeras consequências daquela troca inicial resultam a matéria com a qual Gaspar Antillo, Diretor e corroteirista, trabalhará o restante dos 91 minutos de duração total. A forma, como dito, está dada pela fotografia de Sergio Armstrong, que aproveita a paisagem do belíssimo lago LLanquihue (um dos maiores da América do Sul).

Um detalhe cada vez mais frequente nas produções cinematográficas atuais tem a ver com o uso de drones pois, neste caso, as espetaculares tomadas aéreas, devem ter sido realizadas por esses aparelhos. Assim mesmo, a música original muito boa, de Carlos Cabezas e, também, a adaptada – de Beethoven, Mozart, Pergolesi, Handel, muito bem selecionada e aproveitada.

A produção leva o sobrenome Larraín, bem conhecido nessa cinematografia e, também participa Chilevisión, um canal de TV aberta. Sem chegar a ser muito cara, há cuidado desde os grandes assuntos até os menores, por exemplo, a construção do pequeno cais, o desenho de cada um dos botes utilizados etc.

Porém, quase todos os principais profissionais têm algum antecedente nos Estados Unidos – incluso o argentino Gaston Pauls. As que não possuem tal linha no currículo são Millaray Lobos (a mulher que se aproxima a Memo), com atuações só no cinema local, e Solange Lackington (como a produtora de televisão), famosa lá como atriz de teatro e séries de televisão.

Há detalhes aos quais o espectador deve estar atento. O significado dos nomes está nessa linha: Memo, nome do protagonista, faz alusão à memória, elemento permanente neste personagem; o bote em que vem a mulher, se chama “Aurora”, vinculado ao fato que ela o fará despertar, ir à luz de uma nova perspectiva de vida.

“Ninguém sabe que estou aqui”, na sua condição de drama bastante denso, faz refletir sobre decisões ruins e as consequências de diferente tipo que podem trazer e sua prolongação ao longo do tempo. Muito bom filme, para ser assistido, analisado e pensado.

por Tomás Allen – especial para A Toupeira

*Título assistido via streaming.

Filed in: TV

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