Crítica: “Normandia Nua”

Filme amável, agradável, “Normandia Nua” é uma comédia francesa que vai de menor a maior. Apresenta algumas situações que poderiam ser dramáticas ou pesadas, como discussões familiares ou de casais, encontros e separações, tensões econômicas, brigas por posse da terra, ameaça de morte a um fotógrafo, suicídios, apreensões de máquinas, etc. Porém, não chega a incomodar ao espectador. Em geral é leve e interessante, ainda que com aqueles elementos.

O Diretor e co-Roteirista, Philippe Le Guay, tira proveito de assuntos que por um lado estão em alta e que por momentos parecem triviais e até cansativos, mas, por outra parte, fazem rir e também refletir.

A primeira impressão na sala não é tanto visual (a tela não apresenta imagens de atores/atrizes, de objetos ou de locais) como auditiva: se escuta o mugido de umas vacas… É excêntrico, curioso, inusitado. E vai antecipando algo do tom que acompanhará as ações. Personagens muitas vezes insólitos, por momentos quase dramáticos, mas em geral bastante ridículos – um dos recursos para fazer rir ou sorrir. Mas também são humanos, que o espectador poderá gostar e querer. E as situações que vão surgindo pelo geral são tratadas em modo cordial.

O início é simples: um casal faz uma viagem de Paris para o interior da França. Vão o homem (François-Xavier Demaison), a esposa (Julie-Anne Roth) e a filha adolescente (Pili Groyne). Menção especial para esta última, que finalmente deixará em evidência ao pai, mostrando-lhe uma atitude de “negação” de seus próprios sentimentos e do que acontece diante do mundo externo.

Os três chegam a um pequeno povoado e ele decide se estabelecer lá, trabalhar em forma remota – via internet – e deixar para trás o cansativo mundo parisiense de empresas comerciais. A esposa se adapta sem maiores problemas, mas a filha não gosta da mudança, principalmente por não ter sido consultada antes.

Essa região, dedicada a tarefas agrícolas, está sofrendo com uma queda nacional e internacional dos preços da carne. Isso ameaça seriamente a sobrevivência deles, na sua maioria e em modo imediato e crescente. A angústia cresce e o desespero se aproxima. Os protestos produzem alguns incômodos, porém a informação nos meios de comunicação não é tão grande para chamar a atenção a nível nacional e fazer que o governo tome alguma medida que melhore o panorama econômico e financeiro do pequeno povoado.

Uma nota paralela: este heterogêneo grupo de agricultores, com tendências diversas, confusas e até contraditórias é muito similar a uma parte dos hoje famosos rebeldes franceses             que protestam contra o presidente Macron, conhecidos como “os coletes amarelos”.

No filme, enquanto os habitantes vão tentando achar alguma saída, a casualidade joga um papel: pela estrada do lugar passa um carro com um fotógrafo estadunidense (Toby Jones). Ele é especialista em registrar nus coletivos e descobre que em um desses campos há uma luminosidade especial que faria ideal tirar uma foto com essas características.

Para quem o conhece, é inevitável a imediata associação com o fotógrafo estadunidense, Spencer Tunick, que tem registrado nas últimas décadas imagens desse tipo em diversas partes do mundo. E também faz lembrar aqueles rebeldes que se apresentam pelados em locais públicos para manifestar suas reivindicações.

A tentativa de convencer os habitantes camponeses para posar sem roupas terá adeptos e inimigos. Resistência e apatia não favorecem o plano, mas a necessidade sim. E isto faz imaginar as atitudes com que os próprios realizadores deste filme podem ter se defrontado ao filmar as cenas de nudez.

Aquilo de aceitar posar nu por fama (ou por dinheiro), pode ser interpretado como uma forma de prostituição? – é uma das tantas questões que evidencia “Normandia Nua”. Ou pode ser julgado negativamente o único nu (parcial) erótico que aparece? (de uma mulher desinibida que procura seduzir).

Os personagens do lugar se sucedem e resultam de uma humanidade chamativa. Porém, cada um deles tem seus problemas, suas personalidades, seus vínculos. Suas virtudes, suas falhas e defeitos.

Há uma plêiade desses personagens: Georges Balbuzard (apelido que faz lembrar “balbutiement” – balbuceio), o prefeito do vilarejo (François Cluzet, famoso ator na França); o filho de um antigo fotógrafo (Arthur Dupont, com papel sóbrio e muito bem desempenhado) e sua decidida conquistadora (Daphné Dumons); o marido conservador e, sobretudo, ciumento (Grégory Gadebois), sua exuberante mulher (Lucie Muratet) e outros. Note-se que, além deles, muitos dos atores secundários são habitantes do campo, não profissionais.

Aos poucos, na aldeia, vários começam a entender que a estranha ideia de tirar a foto com um nu coletivo não é tão ruim se considerado que favoreceria a difusão da causa dos agricultores. O zigue-zague afirmativo-negativo com relação à foto de desnudos deixará em evidência tendências psicológicas, ideológicas, culturais. É que hoje parece haver algo terrível, mas também algo inocente no desnudo. Algo perverso, mas também algo sublime.

Também sem explicitar verbalmente o longa dá margem para pensar. Despretensiosamente, os questionamentos se sucedem e podem dar lugar a questões mais profundas, até de filosofia elementar:

  • Por que temos uma relação de tanta complexidade com o corpo?
  • Pela condição sexuada da espécie humana? E por que isso causa incomodidade?
  • É ancestral ou só cultural?
  • Por qual motivo em geral temos vergonha de ficar nus?
  • No percurso humano, houve inocência inicial e depois começou a vergonha e a maldade? (como fala o texto bíblico)
  • Por que há um senso de culpa com o corpo nu, próprio ou alheio?
  • Por que nossa cultura só aceita nus por determinados motivos e contextos (lugares, situações), e não por outros?
  • Diante da nudez, há extremos como a timidez ou o exibicionismo, a rejeição e a exploração. Existe uma atitude que possa considerar-se autêntica, equilibrada, legítima, positiva?

E também sobre ecologia e comer carne:

  • É legitimo matar animais?
  • Fazemos isso por necessidade (como comida e, também, como produção agrícola e comércio)?

Alguns trabalhos técnicos não passam despercebidos, como o figurino de Elizabeth Tavernier. Obviamente, a fotografia de Jean-Claude Larrieu, cuidadosa em cores, iluminação, enquadres, planos e composição. Tanto ele quanto o diretor tiveram que trabalhar com elementos adequados, que não favorecessem o voyeurismo e não incomodassem o espectador nem os próprios participantes do filme.

Há uma série de desfechos, dos conflitos que têm os diversos personagens. Mas o desfecho do conflito central que representa tirar essa foto com nus integrais é terno, até emocionante. A conclusão é que “Normandia Nua” é uma realização cordial, com ternura, que deixa um sabor suave e merece ser assistida até para descontrair-se, em um mundo cheio de conflitos.

por Tomás Allen – especial para A Toupeira

Filed in: Cinema

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