Crítica: “O Anjo”

Robledo Puch. Em 1972, na Argentina, este foi um caso policial marcante. Tanto para a própria polícia quanto para a sociedade, o sobrenome deste assassino (11 mortes) e autor de inúmeros delitos ficou famoso pelo elevado número e pela crueldade das ações. No momento em que foi detido, um jornalista da televisão argentina o descreveu como possuidor de “olhos espreitadores, olhar assassino”.

Aguda definição que resume, provavelmente melhor que o filme, o que caracterizava este indivíduo. Porém, deve sublinhar-se que ao analisar uma obra cinematográfica, interessa pouco a fidelidade aos fatos nos quais supostamente se baseia. Aliás, sobre um mesmo assunto podem existir diversas versões, com formas divergentes de interpretação e até de imagens. Mas isso não vai definir totalmente a qualidade do longa, que pode ser bom, regular ou ruim. Também não são por si mesmos os fatos ou o assunto os que vão dar a palavra final. Sobre grandes temas pode haver péssimos filmes. E o contrário.

Em O Anjo (El Ángel) o produto final é intermediário. Por um lado, destaque para as interpretações das conhecidas atrizes argentinas Cecilia Roth (86 trabalhos em cinema e televisão) e Mercedes Morán (54 aparições, três delas consecutivas nas telas brasileiras nas últimas semanas). A primeira como a correta e magoada mãe de Robledo Puch, em muito boa atuação e a segunda também muito bem como mãe de Ramón, comparsa do anterior

Morán o faz representando outro tipo de pessoa, provocativa e delinquencial. Também trabalham Luis Gnecco como o pai do protagonista, indivíduo estrito e honesto, e Daniel Fanego, pai de Ramón, no difícil rol de um viciado e perverso delinquente. Ambos em forma correta. Chino Darín (filho do famoso e prolífico ator argentino Ricardo Darín) cumpre sem sobressair e o debutante Lorenzo Ferro contribui com sua fisionomia, muito próxima ao Robledo Puch autêntico.

Por outra parte, há inconsistência no tom geral da produção e o perfil psicológico do protagonista não convence totalmente. Há uma superficialidade na abordagem de um sujeito que mente, rouba e assassina sem piedade. É como se esse escorregar emocional próprio dos psicopatas, de algum modo tivesse se deslocado ao filme mesmo. Não que a realização seja psicopática, mas carece de densidade. Até resulta curioso que as passagens deliberadamente cômicas foram mais bem resolvidas do que muitos dos momentos dramáticos.

Na tela aparecem mortes e sangue que podem impactar alguns espectadores, mas muitas cenas acompanhadas por músicas populares daquela época, e inclusive a atuação da polícia, resultam banais. É claro que isso foi realizado em forma deliberada pelo diretor – provavelmente para ridiculizar às autoridades, ou talvez para tirar parte do denso peso dramático e da crueldade que poderiam derivar de mostrar mais explicitamente diversos delitos.

Também pode ser para evidenciar uma personalidade patológica por vezes seccionada, onde a proposital burla da lei e de qualquer empatia dava lugar em modo paralelo a uma espécie de indiferença e insensibilidade total com o mundo exterior e com as outras pessoas.

Porém, tudo isso não basta para justificar esse verniz que não permite aprofundar numa sinistra mentalidade criminosa. Há uma cena na qual Robledo Puch reflete consigo mesmo sobre quem é, e fica evidente que mente inclusive nesse monólogo, já que se define essencialmente como um ladrão sendo que, além disso, era também mentiroso e pouco depois resultaria ser um criminoso serial. Mas “O Anjo” dá um tom bastante leve ao monstruoso.

Um dos argumentos utilizados pelo protagonista é que se nasce com um destino pessoal. Em psicologia sabe-se que, em geral, “predisposição não é predestinação”. Porém, em determinados casos patológicos deve-se reconhecer que sim, nascemos para ser de uma determinada maneira. Porém, como justificativa de crueldade, não é válida.

Muito mais discutível ainda é o próprio caso apresentado no filme: o protagonista se vangloria desse suposto saber ser ladrão. Mas a obra mostra que o final foi o fracasso total: a prisão. Se o espectador olha de lado para a realidade como ponto de referência adicional, a situação é pior: Robledo Puch está preso faz 47 anos e recentemente uma solicitação de liberdade escrita por ele mesmo, foi rejeitada por um Juiz. Se se quer falar de destino, o mesmo não era roubar; era ficar preso pelo resto da vida.

Outro assunto que se apresenta ali de maneira direta ou indireta, é se há uma espécie de “arte de roubar”. Além desse final lapidário ao que pode levar a delinquência, deve-se lembrar de que gabar-se e elogiar o roubo também é condenado pelas leis. Exatamente se chama “apologia do delito” e mostra uma tendência de conduta não muito elogiável. O longa não atinge esse patamar, mas há um problema potencial: que “O Anjo” produza empatia com o delito.

Chamam muito a atenção duas cenas nas quais o protagonista parece ter sentimentos positivos autênticos: chora com relação a uma etapa anterior de sua vida que lhe produzira saudades, e com relação a sua mãe. Se nos remitimos aos autênticos psicopatas, não há muita margem para tal tipo de emoções. A pergunta aqui é: trata-se de uma humanização deliberada do personagem?

Por todo o anterior, a sensação que fica ao ter assistido a “O Anjo” é ambígua, como o próprio filme: entre discreto e medianamente aceitável.

por Tomás Allen – especial para A Toupeira

Filed in: Cinema

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