Crítica: “O Beco do Pesadelo”

Grandes obras literárias costumam ser um excelente ponto de partida quando se pensa em adaptações para o cinema. Por outro lado, existe o recorrente problema de se pegar um texto denso e transformar em algo “mais suave” para as telonas, ainda que isso claramente tire parte de sua relevância.

Assim acontece com “O Beco do Pesadelo” (Nightmare Alley), que, se vende como sendo baseado no livro homônimo de William Lindsay Gresham (que no Brasil ganhou a tradução “O Beco das Ilusões Perdidas”), lançado em 1946, mas que nem de longe possui a mesma profundidade.

Dirigido por Guillermo del Toro – que costuma entregar resultados incríveis em sua trajetória no mercado de entretenimento – o filme mantém a essência do livro, mas peca ao transformar personagens fundamentais em meros coadjuvantes, cujas participações são apagadas pelas falta de importância que lhes é dada, como é o caso da vidente Madame Zeena (Toni Collette).

A trama gira em torno de Stanton Carlisle (Bradley Cooper, que, embora seja um ótimo ator, não tem a idade equivalente a de seu personagem nas páginas originais), que busca trabalho em um circo itinerante cujas maiores atrações são as chamadas “aberrações”, que oferecem ao público uma diversão no mínimo, duvidosa.

É nesse cenário que o protagonista começa sua escalada para tornar-se um ilusionista de sucesso ao lado da jovem Molly Cahill (Rooney Mara, com menos destaque do que merece), cujo ar inocente e conduta moral decente foram alguns dos poucos acertos mantidos em tela.

A ambição desmedida de Stan o leva a trilhar caminhos condenáveis no que diz respeito a mais do que enganar o público com truques de adivinhação. A ânsia por ter notícias ou conseguir manter uma última conversa com aqueles que já partiram é o que motiva as pessoas a acreditarem no discurso fraudulento de quem se diz capaz de fazer contato com o além.

Para ajudar o personagem nesse golpe emocional, surge a figura da psicóloga Lilith Ritter (Cate Blanchett com a mesma imponência que lhe é peculiar em cena). A improvável dupla será responsável por momentos tensos e importantes em tela.

Ao longo de 303 páginas, “O Beco das Ilusões Perdidas” enreda o leitor de maneira sufocante, levando-o para dentro da espiral de derrocada de Stan, com direito a situações explícitas que atingem de maneira impiedosa quem se atreve a encarar a narrativa.

O mesmo não acontece com “O Beco do Pesadelo”, cuja superficialidade não torna o público capaz de se conectar de fato com as figuras apresentadas, mesmo após um início bastante promissor, quando Stan chega ao circo, conhece o proprietário Clem Hoatley (Willem Dafoe, bem apropriado no papel) e se vê em confronto com a questão sobre o que faz de um homem um selvagem.

Com visual e cenografia competentes sob o elegante estilo noir, o longa mostra-se criação de Del Toro – que também é responsável pelo roteiro ao lado de Kim Morgan – logo nos primeiros momentos (a sequência claustrofóbica passada na Casa da Diversão com seus cenários labirínticos é prova disso).

Mas, o lúdico com ares fantásticos não é suficiente para sustentar a versão apresentada, cuja responsabilidade pela aprovação, provavelmente é culpa do estúdio que deve ter imaginado que fazer uma adaptação mais consistente e fiel pudesse limitar o público interessado – o que, para mim, foi uma decisão muito equivocada.

Enfim, esta é mais uma situação, entre tantas, em que se torna complicado gostar do filme e do livro, caso se conheça os dois. Para isso, seria necessário esquecer que ambos partem da mesma premissa e imaginá-los como obras distintas, o que se tornaria uma afronta ao escritor que criou este universo tão único e que, mesmo após 76 anos, continua tão relevante.

por Angela Debellis

*Título assistido em sessão regular de cinema.

Filed in: Cinema

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