Crítica: “O Farol”

Um suspense em preto e branco, com basicamente dois atores, um farol no meio do nada, em uma época que não é a nossa, elementos místicos e devaneios, muito devaneios (ou não?). Essas são as premissas de “O Farol” (The Lighthouse), filme dirigido por Robert Eggers e estrelado pelo aclamado Willem Dafoe e pelo próximo Batman, Robert Pattinson.

Com quase duas horas de duração, o longa traz uma sensação de que estamos parados no tempo, submersos naquela atmosfera por vezes fatigante. Já nas primeiras cenas vemos os personagens de Dafoe e de Pattinson caminhando com dificuldade em meio a rochas, logo após parados, olhando fixamente para a câmera, o que o próprio Eggers traduziu na afirmação: “É nesse momento que eu falo: essas são as pessoas com quem você vai passar a próxima 1 h e 50 minutos”.

Thomas Wake (Willem Dafoe) é faroleiro há décadas, vive isolado na pequena ilha rochosa e cuida do farol, com uma devoção medonha. O velho, que passa a maior parte do tempo bêbado, recebe Ephraim Winslow (Robert Pattinson), após seu outro ajudante morrer em um acesso de loucura. Ephraim acredita que irá aprender o ofício, mas tudo que consegue é se tornar uma espécie de zelador, um faz tudo.

Os dois homens não desenvolvem uma relação amistosa: Winslow começa a ficar obcecado em subir até a luz, enquanto Wake constantemente alcoolizado parece sentir prazer em humilhá-lo. Uma atmosfera mística começa a invadir o lugar e chegamos a um ponto que fica impossível distinguir se é fruto da imaginação de Winslow ou se aquelas coisas são reais.

Durante a Coletiva de Imprensa realizada com a mídia brasileira, Eggers declarou que “O Farol” não é um filme que dá medo, que a história não é sobre isso. Contou que preferiu trabalhar as sombras que existem dentro da cabeça das pessoas, e foi isso que ele fez: construiu dois únicos personagens com características muito distintas. Ephraim, em seu primeiro momento, é misterioso e de pouca conversa; por outro lado, vemos Thomas que naturalmente beira a loucura, falante e contando histórias diferentes para um mesmo acontecimento.

A escolha dos atores foi fundamental para o acerto da produção. Fica clara a excelência de Dafoe e o que mais encanta em sua atuação é a capacidade que ele tem de nos fazer esquecer qualquer outro papel que tenha feito anteriormente. Em cada trabalho é como se nos fosse apresentado um novo ator

Willem já interpretou papéis dos mais diversos: de um escritor deprimido em “A é das estrelas” a um vilão caricato em “Homem-Aranha”, agora tem é quem tem os maiores diálogos no decorrer do longa e suas falas são um tanto quanto complexas.

Já os que ainda têm alguma dúvida sobre a capacidade de atuação de Robert Pattinson, podem ficar tranquilos. O que vemos em tela é um ator maduro, sombrio e perturbado.

O filme tem estreia prevista para o dia 02 de janeiro de 2020 e é uma obra-prima em todos os seus detalhes e nuances. A originalidade e ousadia de Eggers merecem ser aplaudidas de pé.

por Carla Mendes – especial para A Toupeira

Filed in: Cinema

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