Crítica: “O Gênio e o Louco”

Londres, 1832. Um homem cuja implacabilidade da vida o obrigou a abandonar os estudos antes do tempo, para assumir a obrigação de um emprego aos 14 anos. Outro que teve na dura realidade de um campo de batalha da Guerra Civil Americana, seu equilíbrio mental e emocional destroçado. Em comum, mentes privilegiadas e a vontade de deixar sua marca no mundo através de um trabalho que poucos teriam coragem de assumir.

Esses são os protagonistas que “O Gênio e o Louco” (The Professor and the Madman) traz às telas de maneira tão simples quanto sublime. Há de se ter extrema delicadeza ao se tratar das emoções humanas e todas suas vertentes, e isso, a produção dirigida por Farhad Safinia (que também assina o roteiro ao lado de John Boorman e Todd Komarnick) consegue de forma exemplar.

A trama baseada no livro “O Professor e o Louco” (tradução literal do título original do filme) de Simon Winchester conta a história de James Murray (Mel Gibson), que apesar de toda fluência nos mais diversos idiomas e riquíssimo conhecimento de morfologia e sintaxe, encontra barreiras invisíveis impostas por classe social e linhagem familiar pouco aprazíveis aos olhos dos catedráticos de nome da época.

O outro protagonista é Doutor W. C. Minor (Sean Penn), ex-capitão do exército inglês, condenado pelo assassinato de um civil confundido com alguém tido como seu perseguidor. Posteriormente, já cumprindo pena em um Hospital Psiquiátrico – no qual foi submetido a vários tratamentos de ética questionável – ele seria diagnosticado com um quadro de esquizofrenia.

A dupla se forma a partir da ânsia de James em escrever o mais completo dicionário da língua inglesa (aquele que viria a ser o icônico Dicionário de Inglês Oxford). Para isso, teve a brilhante ideia de pedir ajuda a voluntários anônimos de todo país que deveriam mandar, via correio, sugestões de palavras – já com seu significado definido – para fazerem parte do conteúdo da publicação, que também traria um minucioso estudo histórico de cada verbete.

Mesmo com sua liberdade negada, Doutor Minor foi o responsável pela contribuição de cerca de 10.000 palavras utilizadas na obra final. Sua capacidade em lidar com tais informações, catalogando-as física e mentalmente é algo a ser exaltado. Assim como a junção perfeita que encontrou com James, outra pessoa tão capaz, audaciosa e brilhante quanto ele.

Se por um lado há o resplendor oferecido pela sabedoria e sagacidade dos personagens, por outro há o triste quadro que mostra que os bastidores de um grande feito nem sempre são tão agradáveis. O sofrimento visto por dois ângulos distintos é representado sob a forma de uma sórdida tentativa de sabotagem do trabalho de James e sob a pouca disposição dos médicos em de fato empenhar-se para alcançar alguma melhora do quadro de saúde de Minor.

Saber que a narrativa é baseada em fatos reais a torna ainda mais contundente e nos faz perceber o quanto o mundo perde quanto mais se afasta de valores e se deixa consumir pela facilidade oferecida por recursos cada vez mais rápidos e impressionantes que, quando mal usados, nos transformam em pouco mais do que meros dependentes – ainda que permaneçamos com nosso instrumento mais precioso dentro de nossas próprias cabeças.

Vale conferir.

por Angela Debellis

Filed in: Cinema

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