Crítica: “O Mistério do Gato Chinês”

Desde a cena inicial a produção sino-japonesa “O Mistério do Gato Chinês” (Kûkai / Legend of the Demon Cat) mostra a que veio: provocar uma aura de encantamento e até mesmo uma leve dúvida em relação ao que é realidade e o que é apenas fantasia apresentada em tela.

A trama passada na cidade de Chang’na entre os séculos VIII e IX, durante a Disnatia Tang, tem como foco a até então inexplicável ação de um gato preto, falante e enigmático, que executa não apenas membros da nobreza – o momento que mostra o Imperador Xuanzong (Zhang Luyi) sucumbindo é bastante incômodo – mas também nomes relacionados à segurança real e outros aparentemente aleatórios, mas que terão detalhes em comum revelados no decorrer da narrativa.

Quando sutis evidências mostram que a morte do Imperador pode ter causas bem mais complexas do que a doença fatal divulgada para o povo, uma inusitada dupla formada pelo ex-escrivão oficial – que na verdade sonha em ser poeta – Bai Letian (Huang Xuan) e pelo monge japonês especializado em exorcismo Kûkai (Shôta Sometani) – que estava na China a fim de estudar escritos budistas – para buscar a verdade sobre o fato.

A trajetória dos protagonistas será permeada pela descoberta de episódios que os levará a esclarecer situações passadas três décadas antes, quando o Imperador parecia ter verdadeira adoração por sua concubina Yang Guifei (Sandrine Pinna), jovem cuja beleza só se equiparava a sua delicadeza e bondade.

É a representação desse passado o grande trunfo do longa dirigido por Chen Kaige (que também é um dos roteiristas ao lado de Hui-Ling Wang), que entrega à plateia sequências repletas de uma graciosidade ímpar, com cores deslumbrantes e visualmente encantadoras. São ilusionistas que ganham asas e alçam voos em corpos de garças, um origami que se transforma em tigre – para logo depois explodir em uma nuvem de pétalas – tudo aos olhos maravilhados tanto de quem acompanhava a cerimônia no castelo chinês há mil anos, quanto de quem está sentado na cadeira de cinema em dias atuais.

O ponto negativo – por assim dizer – do longa que adapta o romance homônimo do autor japonês Baku Yumemakura fica para a qualidade inferior (quando comparada à excelência dos outros efeitos) da execução visual do gato do título. Ainda que isso não diminua sua importância ou de história pessoal repleta de surpresas, a sensação que fica é que sua aparência merecia um pouco mais de apuro técnico.

Vale conferir.

por Angela Debellis

Filed in: Cinema

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