Crítica: “O Prisioneiro”

Dylan Burke (Juan Pablo Raba) foi condenado por um crime muito grave: matou uma mulher grávida. Também faleceu o futuro bebê. As consequências desse assassinato continuam vigentes, tanto para ele quanto para Daniel Calvin (Laurence Fishburne), diretor do presídio de máxima segurança no qual está Burke. O prisioneiro foi julgado e condenado. Cumpre a condena e sai em liberdade. Porém, isso resulta insuportável para Calvin, que partirá para mudar tal desfecho.

Com esta base de partida, o diretor e roteirista Paul Kampf, desenvolve um filme policial, com intensa carga dramática. O plano narrativo, com idas e voltas, interessa, criando um relato dinâmico. No entanto, não é só isso que vai sobressair nesta realização. Os assuntos de fundo, próprios de questões éticas, são fundamentais ao assistir e, até, depois de fazê-lo. Se os fatos que se sucedem resultam atrativos, os interrogantes e polêmicas intelectuais e vitais são um pano de fundo, que também envolverá o espectador.

A aparição de Maria (Juana Acosta), esposa de Burke, reclamando por direitos dos condenados, mesmo estes havendo sido julgados em forma correta no plano da justiça, vai trazer novas perspectivas ao relato. Calvin é posto em xeque por suas atitudes, e seus planos contra Burke encontram renovados problemas, forte resistência. Maria é uma mulher decidida na defesa de seu marido, e ele ganha força com essa figura e seu apoio.

Aos poucos, mas sem pausas nem vacilações no percurso, os vínculos entre os personagens adquirem mais elementos e complexidade. E outras figuras vão aparecendo, como a do governador Mandera (Esai Morales), que traz novas complicações. Seu modo de entender os problemas dessa prisão e seu jeito político de procurar, acima de tudo, não ser atingido, dão outro ângulo às situações já existentes. Tudo contribui não apenas para a trama, mas para temas densos.

Assim, convida a refletir: os culpados por crimes têm direitos e devem ser respeitados apesar de sua nocividade e periculosidade? Para a questão anterior, há um limite ou são direitos absolutos? O passado é isso, algo que já aconteceu e deve ser superado? Deve-se procurar realmente reformar e reintegrar os detentos à vida social? Pode ser admitida a justiça “com as próprias mãos”? A pena de morte, mesmo aplicada sob juízo legal, é outro assassinato? A vingança, iguala o vingador ao infrator?

E ainda: O perdão é sempre algo positivo? Quem pode ser perdoado? O perdão deve acontecer em algumas circunstâncias, e sob determinadas condições? Ou é incondicional, sem requisitos?

 Muito provavelmente, há outros assuntos para pensar e até debater, mas a lista anterior já pode dar uma ideia do que oferece O Prisioneiro, título disponível no Cinema Virtual. E traz renovadas perspectivas ao tema das prisões, embora existam muitos filmes prévios (por exemplo, Os Doze Condenados; Papillon; O Expresso da Meia-Noite; Fuga de Alcatraz; Condenação Brutal; Em Nome do Pai; Um Sonho de Liberdade; À Espera de um Milagre; Carandiru; Prisioneiro da Grade de Ferro; O Profeta). Não faltam nessa lista – e há outros títulos, sem dúvida – diretores cruéis, locais sinistros, injustiças, agressões, violência de todo tipo, desespero, morte. Aqui, entretanto, embora apareçam muitos desses elementos, a mistura é renovada. A abordagem, sem chegar a ser excepcional, é muito envolvente e bastante aprofundada.

 Além disso, há outra característica, que pode agradar alguns espectadores e desagradar outros. Trata-se de perguntas sobre os acontecimentos que se desenrolam e que não são respondidos claramente. Dois exemplos: quem foi o informante que, desde o presídio, denunciou as irregularidades que lá aconteciam? Quem é o pai da filha de Maria? (uma interpretação dada a Burke poderia ser efetiva ou apenas uma procura de alívio).

 Sobre as atuações: destaque para o afamado Laurence Fishburne, como um indivíduo magoado, vingativo, cruel. Acompanham, em modo muito correto, Esai Morales, Edward James Olmos (os três, atores muito experimentados), Juana Acosta (doce e firme ao mesmo tempo), J.P. Raba, e outros. Boas a edição, de Andrés Ramírez; a fotografia, de René Jung; e a música, de Robert Rospide. Os dois últimos conseguem especialmente um final que ressalta ainda mais O Prisioneiro, pelo relatado, e porque ajuda a ficar pensando.

Paul Kampf trabalhou muito e bem, como diretor e, também, como roteirista (e até teve um pequeno papel). Sabe relatar, cria perfis muito elaborados dos personagens (não apenas dos já citados, mas outros, vários), vai semeando dúvidas nesse percurso e consegue, em resumo, um muito bom filme.

por Tomás Allen – especial para A Toupeira

*Título assistido via streaming, a convite da Elite Filmes.

Filed in: BD, DVD, Digital

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