Crítica: “O Silêncio dos Outros”

“O Silêncio dos Outros” (El Silencio de Otros) é um tremendo filme. Essa impressão, em rigor, é melhor se aplicada aos fatos nele narrados: tremenda guerra a que afligiu a Espanha, de 1936 a 1939. Definimos com este adjetivo no sentido de “(aquilo) que faz tremer; horrível, espantoso”.

O longa conta com produção executiva dos irmãos Almodóvar e direção de Robert Bahar e Almuneda Carracedo. Além disso, ambos são coprodutores e co-roteiristas. Carracedo, também fez o trabalho de fotografia e foi coeditora.

É um documentário que demorou seis anos para ser realizado e consiste principalmente em relatos de vítimas diretas e indiretas do franquismo, uma das facções em luta nessa cruel guerra civil. Foi Francisco Franco, o chamado Generalíssimo, quem comandou o golpe de Estado conservador, nacionalista e católico, contra o governo da República, que tinha ganhado previamente as eleições. Franco triunfou e tornou-se o chefe de Estado da Espanha durante os 40 anos seguintes, dirigindo o país com mão dura, como ditador absoluto.

“O Silêncio dos Outros” é um registro de acusações que principalmente nos últimos anos estão fazendo essas vítimas e parentes contra seus torturadores e assassinos franquistas, além de outros cargos por violação de direitos humanos básicos. Ou seja: crimes imprescritíveis, aqueles que não prescrevem e podem ser julgados em qualquer momento já que não caducam perante o passo do tempo, por causa da sua índole extremamente perversa. Segundo a definição da ONU, entram nessa categoria crimes de guerra, genocídios e danos à humanidade.

O documentário concentra-se em alguns casos e em determinados momentos ao longo desses seis anos (2012 a 2017), mas também amplia para ações grupais e mais abrangentes. Em 2013, a demanda passou a um nível internacional, como na Argentina, na alçada de uma conhecida juíza, María R. Servini de Cubría.

Embora a magistrada manifeste bastante sensibilidade com as declarações dos denunciantes, o julgamento (conhecido como “La Querella Argentina”) não progride totalmente porque implicaria ruptura de relações entre ambos os países. Porém consegue alguns importantes avanços.

Como já dito, o filme não é cruel, mas sim evidencia a crueldade de um momento histórico da Espanha. É emocionante e não é fácil avaliar elementos da linguagem, como fotografia, edição, ritmo do relato. É simples de ser entendido e provavelmente seu impacto dependa muito das vivências e da posição ideológica de cada espectador. De todas as formas, é difícil não se deixar comover e se identificar com a narrativa. Também, ao longo de seus 96 minutos, há uma série de reflexões para pensar.

Como era de se esperar, quase inevitável, aparece o acontecido no Chile com o ditador Pinochet a partir de 1973. A produção recolhe imagens e testemunhas da ditadura, o que, em vários sentidos, o assemelha ao documentalista chileno Patrício Guzmán.

Fica reforçada a ideia que nos genocídios há crimes contra a humanidade, que são diferentes dos crimes comuns. Os primeiros, ao serem delitos universais, devem ser julgados por tribunais internacionais.

Se, por um lado, o desenrolar deste documentário-testemunhal é progressivo, ascendente, por outro se torna repetitivo em alguns pontos. Mas em nada desabona seu conteúdo.

Finalmente, foi chamativo que ao final da projeção exibida durante a Cabine de Imprensa, se escutassem alguns aplausos – embora mornos, mas muito significativos -, pois é raro que tal manifestação aconteça nestas ocasiões.

O espectador de “O Silêncio dos Outros” estará diante de um filme e de fatos da História que ainda fazem estremecer.

por Tomás Allen – especial para A Toupeira

Filed in: Cinema

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