Crítica: “O Último Amor de Casanova”

Filme hedonista, que trata sobre o prazer e que produz prazer artístico no espectador. O hedonismo foi uma antiga corrente filosófica grega ou doutrina moral, segundo a qual o único fim supremo e a origem última da ação humana é o prazer. Entendido este não apenas como elemento sensual, mas contendo-o. Segundo ela, deve-se alcançar a felicidade dando prioridade à satisfação obtida pelos desejos. A redução destes se daria sobre a aquisição imediata do prazeroso, superando o sofrimento.

Provavelmente sem tanto embasamento nem preocupações teóricas, mas de forma vital, sobre esta base pragmática, Casanova deve ter exercido sua vida. Também desta maneira o diretor Benoit Jacquot deve ter realizado esta obra: para usufruí-la e que seja usufruída.

Com relação a Giovani Giacomo Casanova, uma rápida pesquisa informa que viveu em Europa nos anos 1725 a 1798. Auto intitulou-se cavaleiro e foi expulso (ou fugiu) de Veneza. Jogador e mulherengo, na idade adulta, foi nomeado bibliotecário na Inglaterra e escreveu suas Memórias. O filme traz dados semelhantes a estes e essa história estará centrada nele.

O relato é dado pelo próprio Casanova a Hortense Stavenson (Nancy Tate, sóbria e eloquente ao mesmo tempo). Está referido ao vínculo entre ele (Vincent Lindon, aqui um pouco apagado especialmente se o comparamos com seus trabalhos em O Valor de um Homem e Em Guerra) e uma mulher: Marianne de Charpillon. Esta, muito bem interpretada por Stacy Martin.

Inserido na nobreza em forma não muito bem explicada, a relação deste sedutor com a Charpillon representa seu único amor entre tantas conquistas de efêmera duração (entre 4 ou 5 meses, em média, segundo ele mesmo explica). Nesta ocasião há uma permanente oscilação nas atitudes dela que deixam perplexo o sedutor, até então arrasador. Disso se ocupa este drama.

Ao detalhar os trabalhos específicos temos uma longa lista de boas atuações, entre as quais estão, além de Stacy Martin, Anna Cottis como uma mãe dura e a experiente Valeria Golino, em papel excepcionalmente representado.

Muitos itens técnicos dão sustento decisivo a “O Último Amor de Casanova” (Dermier Amour): a impecável fotografia de Christophe Beaucarne, tanto no primoroso uso das cores quanto na equilibrada composição – criando simetrias com dois, três e quatro elementos; a música de Bruno Covais; o figurino de Elsa Capus; os penteados e perucas de Virginie Berland; a arte de Lionel Callari, todos com suas respectivas equipes de trabalho.

A isso acrescentam-se as belezas femininas que se sucedem, tudo para constituir um trabalho cinematográfico visualmente muito bem elaborado. Por isso, o mencionado ao início: é uma obra para desfrutar, com imagens construídas de modo delicado.

Também há algumas cenas (uma dança, um solo operístico feminino) que trazem uma cadeia de prazeres artísticos, pois são desfrutadas pelos próprios atores, pelos que assistem dentro do filme (por exemplo o protagonista emocionando-se sutilmente ao escutar uma ária operística), pelos que as imaginaram e executaram (diretor, roteiristas e técnicos) e pelos espectadores. Porém, é preciso certo grau de refinamento cultural para desfrutar do requinte oferecido pela realização.

O ponto forte de “O Último Amor de Casanova” é formal, como já dito. O conteúdo parece não ser tão consistente, pois tem algumas pequenas lacunas narrativas de continuísmo e não há reflexões muito elaboradas – ainda que algumas façam parte de nossas vidas, do dia a dia e de uma espécie de filosofia elementar, sobre as relações entre homens e mulheres. O relato em geral é cuidadoso, ainda que tenha alguns leves toques escatológicos.

Portanto, um filme sobre erotismo, sensualidade e sexualidade, e sobre relações humanas, para apreciar plenamente no visual, sem excessos nem vulgaridades. Pelo contrário: é uma obra cinematográfica elegante, com imagens que estão à altura das melhores como, por exemplo, as de Stanley Kubrick (Barry Lyndon e 2001, Uma Odisseia no Espaço).

por Tomás Allen – especial para A Toupeira

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