Crítica: “Querido Evan Hansen”

“Antes de julgar a minha vida ou o meu caráter, calce meus sapatos e percorra o caminho que eu percorri, viva minhas tristezas, dúvidas e alegrias. Percorra os anos que percorri, tropece onde eu tropecei e levante-se assim como eu fiz. E então, só aí poderás julgar. Cada um tem a sua própria história. Não compare a sua vida com a dos outros. Você não sabe como foi o caminho que eles tiveram que trilhar na vida”.

O texto de autoria desconhecida (embora já tenha sido atribuído a vários autores ao longos dos anos, e usado incontáveis vezes, nas mais diversas situações) sempre me faz questionar antes de dizer impropérios sobre meus semelhantes. Para quem não vive o problema (seja ele qual for), é muito fácil falar sobre supostos exageros ou achar-se quase uma divindade no que diz respeito a encontrar soluções para a dor do próximo, quando a realidade é que os que julgam são, em boa parte, os que têm menos controle sobre as próprias histórias.

Dito isso, é muito provável que “Querido Evan Hansen” (Dear Evan Hansen) seja mais bem recebido por quem convive com algo que possa afetar sua saúde mental ou a de alguém a quem se ama. Resta saber, até que ponto haverá coragem para aceitar que, ainda mais se tratando de dias atuais, a esmagadora maioria parece se encaixar em algum desses padrões.

Dirigido por Stephen Chbosky, o longa é baseado na peça teatral homônima, de 2015, grande sucesso na Broadway (vencedora de seis prêmios Tony), que também gerou um livro lançado em 2019 – este, meu único contato prévio com a história antes de ver a adaptação cinematográfica.

A trama gira em torno da espiral de mentiras em que o jovem Evan Hansen (Ben Platt, que também interpretou o papel nos palcos) se envolve, devido a uma conclusão equivocada do casal Cynthia (Amy Adams) e Larry (Danny Pino), após o suicídio de seu filho mais velho, Connor Murphy (Colton Ryan).

O que seria, supostamente, o último bilhete escrito pelo rapaz, era apenas parte de um tratamento proposto pelo terapeuta de Evan, Dr. Sherman, que o aconselhou a escrever cartas para si mesmo – o que fazia quando a folha impressa foi levada pelo estudante que tiraria a própria vida.

Parece correto / óbvio afirmar que não há justificativas para mentiras, mas é necessário enxergar (como sempre) as tais áreas de cinza presentes em todas as situações que vivemos e ações que tomamos. Ao tentar amenizar a dor dos pais e de Zoe (Kaitlyn Dever) – a irmã caçula de Connor -, Evan passa a criar histórias cada vez mais detalhadas sobre uma amizade que nunca existiu, o que faz com que descubra outras possibilidades além das limitações que vive com sua mãe Heidi (Julianne Moore).

E, como uma bola de neve, tal fato ganha dimensões incontroláveis entre os estudantes que, assim como tantos outros fazem na realidade, pouco se importavam com Connor, mas que após sua partida, tiveram uma epifania coletiva e descobriram o quanto sua vida era preciosa. Tal grupo tem como uma das líderes a jovem Alana Beck (Amandla Stenberg), cuja narrativa é uma das mais surpreendentes.

Qualquer produção musical que seja centrada em arcos dramáticos acaba parecendo meio deslocada em alguns pontos – em geral, os conduzidos pelas canções que não seriam usuais na “vida real”. Mas, através de belas melodias e letras impactantes, “Querido Evan Hansen” segue um ritmo no qual a emoção, o entendimento e a reflexão andam de mãos dadas de modo bem eficiente.

Ainda sobre a trilha sonora: Composta por Benj Pasek e Justin Paul, que já tinham em sua bagagem sucessos como “La La Land – Cantando Estações” e “O Rei do Show”, e interpretada por um elenco impecável, esta conta com excelentes momentos, em especial o que mostra, na íntegra, uma das cenas vista em parte no trailer oficial, quando Evan – de início – fracassa em sua tentativa de fazer um discurso póstumo.

Como sempre, há alterações bem visíveis entre o conteúdo do livro e do filme. Eu não vi a peça teatral e não posso dizer o que mais se aproxima dela, mas, confesso ter estranhado / lamentado algumas decisões tomadas em tela – talvez pelo fato de ter terminado de ler a obra na madrugada anterior à exibição do longa na Cabine de Imprensa, o que também serviu para notar que muitos trechos foram seguidos à risca e isso, para um(a) leitor(a), é sempre positivo.

“Querido Evan Hansen” é indicado para quem procura por algo emocionante e inspirador.

PS: Querida Angela Debellis, hoje vai ser um dia incrível e eu vou dizer por quê: hoje você vai lembrar-se de que não está sozinha – há pessoas especiais ao seu lado! – e que merece ser feliz, porque é maravilhosa, mesmo que nem sempre você consiga acreditar disso. Atenciosamente, sua super melhor amiga: Eu mesma.

por Angela Debellis

Importante: Caso sinta que está precisando, não hesite em procurar / pedir ajuda. Se não quiser (ou não puder) conversar com alguém próximo, há serviços especializados para auxiliar nessas situações. Um deles é o CVV (Centro de Valorização da Vida) que tem vários canais de atendimento – todas as informações podem ser encontradas em www.cvv.org.br.

*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Universal Pictures.

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