Crítica: “Terras Perigosas”

Quando se fala em genocídio, é comum que se pense a partir do século XX, e geralmente em territórios europeus, ou próximos destes, como o Holocausto, o Genocídio Armênio e o Genocídio Sérvio. Também é comum que a imagem invocada seja a de estados decadentes tentando evitar a rebelião de uma etnia ou povo dissidente em seu território, os quais acabam por serem os proverbiais bodes expiatórios dos problemas da Nação.

No entanto, genocídios não se restringem a esses países em crise ou afundando: forças coloniais de poderosos impérios são culpadas deste crime também, como o britânico que exterminou quase todos os nativos tasmanianos, bem como desterrou e massacrou aborígenes para abrir espaço para seus domínios, com a justificativa de levar a “civilização” para os povos “atrasados”, num processo longo e horrendo, mas cujos verdadeiros motivos são apenas a pura ganancia e racismo.

“Terras Perigosas” (High Ground) mostra um pouco deste horrendo processo, que mesmo sendo uma história fictícia, representa horrores comuns aos conflitos étnicos do colonialismo na Austrália.

A produção – que estreia na plataforma de streaming Cinema Virtual – segue a história de Gutjuk (Jacob Junior Nayinggul) um jovem aborígene, um dos últimos sobreviventes de sua tribo – massacrada por policiais durante uma missão -, enquanto este ajuda a  Travis (Simon Baker), um branco, a rastrear seu tio que se tornou o criminoso mais procurado do norte da Austrália. No entanto, os conflitos são muito mais complexos, e quando um fato do passado de Travis vem à tona, o caçador se torna a presa.

A trama horrenda se contrasta com os cenários tão belos e exuberantes do norte da Austrália. Esta paisagem, no entanto, é um personagem em si: cada local tem um elemento narrativo importante na história, não apenas como pano de fundo, mas é integral à narrativa. Os sons ambientes também são fundamentais para a composição desta paisagem, e na maior parte das cenas, não há música de fundo, apenas os ruídos dos animais e das plantas ao vento, o que reforça a tensão de muitas das cenas.

O roteiro é complexo, com reviravoltas, subtramas e elementos implícitos, porém ainda assim é compreensível e muito bem apresentado, de maneira que ainda que seja possível se perder em meio à trama, é possível também se reencontrar e seguir assistindo.

Outro fator que merece elogio é o respeito e realismo com que retrata a realidade, modo de vida e tradições dos aborígenes, mesmo que a tribo ou clã em si seja fictício. Isto se deve ao diretor Stephen Maxwell Johnson que se dedica a apresentar nas grandes telas estes elementos, além de ter um produtor membro destes povos, o músico Witiyana Marika, além de um extenso trabalho de consulta e pesquisa com diversos grupos nativos.

No quesito de atuação, Simon Baker rouba a cena: o ator já veterano mostra um grande amadurecimento de seu talento em relação a trabalhos anteriores, representando um personagem em constante conflito com o mundo externo e interno. O filme também marca a estreia de Jacob Junior Nayinggul como Gutjuk, e mostra um grande potencial, ainda que precise de um pouco mais de experiência e polimento de seu talento.

O produtor Witiyana Marika também atua como avô do protagonista e ancião de sua tribo, e mesmo que com pouco tempo de tela, ele passa uma sensação de sabedoria e experiência importante para seu personagem.

“Terras Perigosas” representa uma história que os perpetradores de certos crimes históricos preferiam que fosse proverbialmente jogada para debaixo do tapete, e, portanto, se faz necessário em tempos de revisionismo. Além disso, é um longa belo, triste e tenso, que agradará quem gosta de filmes históricos, bem como fãs de thrillers.

por Ícaro Marques – especial para A Toupeira

*Título assistido via streaming, a convite da Elite Filmes.

 

Filed in: BD, DVD, Digital

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