Crítica: “Todos Já Sabem”

Há um quarteto de nomes relacionados a este filme que, a priori, lhe dão um considerável aval prévio. Todos têm experiência e prestígio a nível internacional, faz já muitos anos. Trata-se do Diretor e Roteirista iraniano Asghar Farhadi, ganhador do Oscar e do Globo de Ouro, ambos ao melhor filme de língua não-inglesa com “A Separação” (2012) e também conhecido por “O Apartamento” (2016).

Também da atriz espanhola Penélope Cruz (ganhadora de um Oscar e de outros 52 prêmios), do ator Javier Bardem (ganhador de um Oscar e de um Globo de Ouro e de um Bafta, entre muitos outros prêmios) e do argentino Ricardo Darín (ganhador inúmeras vezes em Argentina e Espanha e ator principal de ”O Segredo de seus Olhos”, filme vencedor do Oscar estrangeiro em 2009).

O público de massas muito provavelmente não prestará atenção a todos esses antecedentes prévios, mas para alguns setores mais cuidadosos, há alguma expectativa perante Todos Já Sabem”. E essa expectativa será satisfeita, ainda que com algumas reservas.

Este filme nos traz a história de um matrimônio constituído por Laura (Penélope Cruz) e Alejandro (Ricardo Darín). A primeira é espanhola, de um pequeno povoado, e o homem, de Buenos Aires, onde vive. Eles têm dois filhos, um pequeno, Diego (Iván Chavero) e uma adolescente, Irene (Carla Campra). A esposa viaja com ambos de Buenos Aires de volta para Espanha, para assistir a um casamento de uma integrante da família, nessa aldeia. A comunicação dela com o esposo é telefônica e bem cordial.

Dentre os familiares e próximos, se destacam Paco (Javier Bardem), sua mulher Bea (Bárbara Lennie), Fernando (Eduard Fernández) e sua esposa Mariana (Elvira Mínguez). Há outros personagens aparentemente secundários, mas todos têm seu papel, que se irá definindo aos poucos.

O casamento transcorre em modo bastante trivial. Mas o longa tem um início ruim pois o estilo descontraído, incluindo piadas, não convence ainda com os mencionados atores de primeira linha, Penélope Cruz e Javier Bardem,  que atuam de modo pouco cômodo. Inclusive há tomadas de grupos de pessoas totalmente estáticas, artificiais. A sensação é que Farhadi procurou deixar de lado sua condição iraniana e identificar-se com os costumes espanhóis. Mas não funciona ao longo da meia hora inicial.

Por sua vez, Irene desfruta na própria aldeia e em seus arredores da sua juventude e do nascimento de um primeiro amor. Só que, em modo totalmente inesperado – dentro do filme e também para o espectador -, ela desaparece. Para desespero de todos, principalmente da mãe, trata-se de um sequestro.

Enquanto a família procura entender o que está acontecendo, os sequestradores enviam mensagens obviamente chocantes. Informado, chega Alejandro desde a Argentina para tentar ajudar na procura e resgate da sequestrada. A partir desse momento (1 hora e meia de exibição, de um total de 2 horas e 12 minutos) o filme retoma seu interesse porque a trama se torna intensa, com crescentes sensações de culpa, acusações, perigos, angústias e nervosidade.

Como boa obra policial, todos os personagens – com a única exceção da mãe em alguns sentidos – passam a ser suspeitos do sequestro. A complexidade ganha seu lugar e aumenta em modo bem tecido. Aparecem situações do passado que nunca foram totalmente resolvidas e agora ganham renovado lugar. Há mentiras, ambiguidades, desconfianças, ressentimentos, mas também atos nobres e autossacrifícios.

Em alguns sentidos o longa faz lembrar a outro, também policial espanhol e que se passa em um lugarejo: “A Ilha Mínima” (de 2015 e que nesse mesmo ano foi exibido em São Paulo). Considerando a produção completa, as atuações são boas; Penélope Cruz assume um papel mais maduro que alguns anteriores embora não tão brilhante, Ricardo Darín aparece como envelhecido e bem sóbrio e Javier Bardem assume com qualidade um trabalho bastante difícil. Os itens técnicos embora não sejam de alto nível, são corretos.

O final tem um lado relativamente convencional. Porém, a última cena deixa ao espectador com material de diversos níveis: por um lado convida a repassar os personagens para entender o papel de cada um, o que eram e o que fizeram, com base no exposto no filme. Por outra parte, intentar deduzir o que era um dos personagens, qual seu lugar no quadro geral, e o que pode acontecer em modo imediato e ao longo prazo. Neste último nível há margem para perguntas, suposições e especulações de todo tipo. A dúvida, já sem nenhuma imagem e apenas com a companhia dos créditos finais, se instala e lhe da um último giro e renovado sentido a “Todos Já Sabem”.

Ideal para quem busca assistir a um título do gênero policial, de carga dramática, em boa companhia que goste de enredos familiares e policiais e, também, queira trocar ideias sobre o visto e o não visto.

por Tomás Allen – especial para A Toupeira

Filed in: Cinema

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