Crítica: “Um Ato de Esperança”

Ao mesmo tempo em que nos parece justo e óbvio que cada um seja responsável por decisões que possam afetar diretamente suas próprias vidas, não chega a ser ilógica a necessidade de ajuda externa em certos casos.

Fiona Maye (Emma Thompson em interpretação brilhante) é uma experiente juíza da corte britânica que está a frente de casos envolvendo crianças e jovens. Da separação de gêmeas siamesas – que salvaria uma, mas resultaria na morte certa da outra – a filhos levados embora de casa pelos pais, sem o consentimento materno, são diversos temas delicados os que passam por seu crivo.

A narrativa de “Um Ato de Esperança” (The Children Act) trata justamente de uma dessas histórias que demandam soluções urgentes que nem sempre são simples de se tomar. Adam Henry (Fionn Whitehead) é um jovem rapaz que a três meses de completar 18 anos, ainda não tem liberdade legal para tomar determinadas decisões, inclusive no que tange a sua precária saúde, cada vez mais prejudicada por um quadro avançado de leucemia.

Internado em um hospital e sem grandes perspectivas de cura, o rapaz precisa ser submetido a uma transfusão de sangue – único tratamento capaz de aumentar um pouco sua expectativa de sobrevivência. Como entrave para o aparentemente trivial procedimento, um dos assuntos que costumam render polêmicas e debates (nem sempre amigáveis): a religião seguida por ele e sua família.

Como Testemunhas de Jeová e frequentadores do chamado Salão do Reino, o trio formado por ele e seus pais, Kevin e Naomi Henry (Ben Chaplin e Eilenn Walsh), é contra qualquer método que envolva “misturar o próprio sangue com o de outra pessoa”, uma vez que este seria o maior vínculo com Deus e um presente sagrado que não pode sofrer nenhuma alteração pelas mãos do homem.

À juíza caberá a decisão de tentar salvar a vida de Adam, maculando sua convicção, ou deixá-lo morrer por seguir de maneira cega os princípios de sua religião. Para isso, ela fará algo pouco usual nos trâmites da lei: vai visitar pessoalmente o adolescente em seu leito hospitalar, a fim de tentar entender melhor seu posicionamento.

Esse é o ponto em que a protagonista deixa vir à tona um lado diferente de sua personagem. Sai a profissional sisuda e que impõe respeito com sua impecável toga e seu ar de rígidos princípios, para dar espaço à mulher que se questiona sobre a falta da maternidade em sua vida, que consegue enxergar o outro como pessoa – e não apenas como mais um caso a ser resolvido perante a justiça.

O desenrolar da trama toma vários rumos. Há o momento de ver o à primeira vista inabalável casamento de Fiona ir por água abaixo, quando seu contraditório marido Jack (interpretado por Stanley Tucci) declara sua intenção em ter uma amante, enquanto afirma amar a esposa. A confusão de sentimentos gerada pela inesperada aproximação de Adam, que descobre haver um mundo de possibilidades que antes não eram vistas por ele. A necessidade de se manter as aparências em uma sociedade que exige sorrisos e futilidades o suficiente para encobrir um coração partido e uma mente exaurida.

O longa dirigido por Richard Eyre não é dos mais fáceis de se assistir, mas uma vez que a isso se propõe o espectador, destaca-se por sua qualidade técnica e pela fluidez com que fatos tão díspares entre si conseguem se entrelaçar de modo a criar uma história tão sólida quanto possível.

por Angela Debellis

*Longa assistido durante Cabine de Imprensa promovida pela A2 Filmes.

Filed in: Cinema

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