Crítica: “Wim Wenders, Desperado”

Apesar de pouco reconhecida fora dos círculos intelectuais, em particular em países como Brasil, a Alemanha é uma grande referência para a história do cinema. Sua tradição começa junto ao fim da Primeira Guerra Mundial, um evento que devastou o mundo, e a sociedade alemã em particular, quando um movimento cinematográfico surge para refletir esta situação: o Expressionismo Alemão.

Tendo inspirações nas artes plásticas, este estilo de cinema floresceu em particular no gênero do terror – embora outros, como a ficção científica e policiais, também tenham bebido destas fontes – e influenciou diretamente o cinema hollywoodiano, em especial, os filmes de terror da Universal nas décadas de 1930 e 1940 – “Frankenstein”, “Drácula”, “A Múmia”, etc. –, mudando os rumos das produções cinematográficas posteriores.

Com a Segunda Guerra Mundial, o cinema serviu aos nazistas de propaganda, e muitos dos méritos artísticos foram perdidos para servir ao ideal fascista e racista destes e, mesmo quando conservados, como no caso de Leni Riefensthal – que tinha um especial cuidado estético – o foco era propagandístico. Ainda assim, havia cineastas que conseguiram se desviar destas questões, como os que fugiram da Alemanha, e produziram filmes referenciais, como Fritz Lang e a série “Dr. Mabuse”.

O cinema alemão, no entanto, só recuperaria o status de fundamental e referencial nos anos de 1960 e 1970, acompanhando as mudanças nos paradigmas sociais e artísticos provenientes do pós-guerra – mudanças estas que levaram ao surgimento de diversos novos movimentos no mundo inteiro como a “Nouvelle Vague” Francesa. Neste período surgiram na Alemanha cineastas importantíssimos como Rainer Werner Fassbinder, Werner Herzog e Wim Wenders.

“Win Wenders, Desperado” é um documentário que acompanha a obra referencial do cineasta alemão, explicando sua história, suas técnicas e práticas, e como se desenvolveram, os grandes desafios da carreira e vida artística, além de seu interesse por outras artes, como literatura e visuais. Dirigido por Eric Friedler e Campino, o filme segue muito o estilo de Wenders, até mesmo em cenas onde este percorre cenários de suas produções, fazendo paralelos entre o antigo e o novo.

É um grande desafio, pois trata-se de um documentário sobre um homem famoso por seus documentários, e desta maneira acaba absorvendo um pouco do estilo de Wenders. No entanto, não é uma repetição do alemão, e mais uma homenagem, pois não tenta imitá-lo, mas se apropria, para criar uma voz própria.

No entanto, “Wim Wenders, Desperado” dá um enfoque especial ao longa “Paris, Texas”, do diretor alemão. Nem tanto por ser seu primeiro sucesso em territórios americanos, mas por se passar no meio oeste estadunidense, desta forma evocando a ideia do título: ‘desperado’ é um termo que se refere a ladrões e pistoleiros, no oeste americano, principalmente no fim do século XIX e começo do XX, comum e romantizado nos faroestes.

Esta ideia de alguém que não se restringe às regras e leis, quebrando-as na maioria das vezes, é constante e presente, e se refere ao estilo de Wenders, que se negava a aderir às convenções do cinema tradicional, em particular o de influência de Hollywood.

Isto o levou a entrar em conflito na produção do filme “Hammett” com Francis Ford Coppola, um dos entrevistados na produção, um campo em que “Wim Wenders, Desperado” está bem munido: desde figurinistas a diretores e atores são entrevistados para melhor expor o estilo e caráter do diretor, cada um dando uma parte do retrato completo de Wenders. Dentre os mais famosos, o já citado Coppola, Werner Herzog e Willem Dafoe.

Ainda que seja um filme mais voltado àqueles que já o conheçam e queiram se aprofundar na compreensão de sua vida e obra, também é excelente para os que não o conhecem, e pode despertar o interesse para assim descobrirem a produção de Wenders, principalmente para quem conhece Fassbinder ou Herzog, e não o documentado.

por Ícaro Marques – especial para A Toupeira

Observação: O filme será exibido na Sessão de Encerramento do Festival É Tudo Verdade, em 04 de outubro às 20h. Exibição pela plataforma do festival – www.etudoverdade.com.br.

*Título assistido via streaming.

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