Resenha: “O Beco das Ilusões Perdidas”

Em se tratando de leitura, uma das coisas mais incríveis é quando uma obra consegue, sem esforço, não só prender a atenção, mas emocionalmente colocar o leitor dentro da história. Assim acontece com “O Beco das Ilusões Perdidas” (Nightmare Alley).

Título de estreia do autor norte-americano William Lindsay Gresha, e publicado pela primeira vez em 1946, o livro chega ao Brasil através da Editora Planeta, em um momento bastante propício, já que sua nova adaptação cinematográfica, “O Beco do Pesadelo” (em tradução literal do título original), segue em cartaz nos cinemas.

A trama gira em torno de Stan Carlisle, carroceiro de um circo de variedades. Por sua natureza pouco tradicional, as atrações itinerantes são vistas como “aberrações” perante o público que, incrédulo, paga para ver de perto o que lhe parece curiosa e repulsivamente diferente.

É nesse cenário que o jovem começa a trilhar um perigoso caminho, enquanto aprimora suas habilidades como ilusionista. E logo truques banais que implicavam no desaparecimento de moedas ganham uma dimensão muito maior quando Stan decide abandonar a trupe para seguir em busca de algo que pudesse lhe trazer a fama e riqueza que lhe parecem cabidas, não importando o que fosse necessário para alcançá-las.

Em 303 páginas, o autor – cujas informações pessoais conseguem ser tão perturbadoras quanto seu relato ficcional – nos conduz por uma espiral de acontecimentos que nunca flertam com a obviedade e conseguem surpreender a cada parágrafo lido, mantendo a mesma excelência até a última página. Tal fato faz com que nos enredemos cada vez mais na intricada teia de pensamentos e ações do protagonista, cuja verdadeira face vai sendo revelada em um ritmo crescente e sufocante.

Ainda que a narrativa tenha Stan como centro, existem outros fundamentais personagens que servem de alicerces. Entre eles, a misteriosa vidente Madame Zeena; a inocente Molly Cahill (cujo número realizado em uma réplica de cadeira elétrica nos faz questionar sobre o absurdo de se contar com crianças na plateia do circo); e, principalmente, a psicóloga clínica, Dra. Lilith Ritter. Essa tríade feminina será de suma importância para contar a história.

“O Beco das Ilusões Perdidas”, embora tenha um estilo de escrita impecável, não é uma leitura fácil de se fazer, por seu teor que não tem nenhum problema em ser explícito. Ao mesmo tempo, uma vez que nos rendemos a seu texto, torna-se impossível abandoná-lo, já que cada palavra parece exercer um inexplicável fascínio, que nos deixa em constante expectativa e ávidos por mais informações a cada capítulo concluído.

Logo nas primeiras páginas, o proprietário do circo, Clem Hoately, faz um estranho / pertinente questionamento a Stan: “Como se faz para um homem virar um selvagem?”. Talvez a resposta resida, desde sempre, dentro de nós, mesmo que a maioria procure (até mesmo de maneira sábia) sufocá-la debaixo de uma pilha de obrigações sociais moralmente aceitáveis.

Talvez a temida / questionada selvageria humana nos seja intrínseca e caberá a cada um, domar sua própria fera interior, impedindo que esta se liberte das amarras mentais que aprendemos a manter firmes no decorrer de nossas vidas.

Leitura imperdível.

por Angela Debellis

Filed in: Livros

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