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Crítica: “Detetive Chinatown: O Mistério de 1900”

Poderá surpreender-se o leitor e eventual espectador, mas este é um filme com múltiplos aspectos. Diversos momentos, gêneros, situações, locais – embora prevaleça a cidade de São Francisco, nos Estados Unidos de América, em especial o bairro chinês, chamado Chinatown, no ano 1.900.

O relato inicia-se em Pequim, com uma invasão militar estadunidense. Além disso, uma aliança de oito nações se constitui para enfrentar a China. Nessa breve descrição histórica a trama também se ocupa da rebelião dos boxers, uma sociedade secreta violenta e com rejeição aos estrangeiros. Os boxers, ainda que com reservas, apoiaram a Imperatriz Viúva, principal governante naqueles anos.

Justamente, é ela quem, sabendo de um crime acontecido em São Francisco contra a filha do congressista Grant (John Cusack, em seu 80º longa-metragem), e que um jovem chinês foi injustamente acusado do mesmo, decide enviar um especialista em desvendar assassinatos.

Trata-se de Qin Fu (Haoran Liu), detetive que assume metodologia e tem traços muito similares a Sherlock Holmes – aquele famoso personagem de ficção da novela policiaca. Pese a suas maneiras excêntricas, com observações extremamente agudas, consegue solucionar casos em aparência muito  difíceis, identificando o criminoso. Desta forma, Fu ganhou fama até ser conhecido pela Imperatriz. Seu novo destino vai trazer um prolongado e complexo percurso, do qual se ocupará “Detetive Chinatown: O Mistério de 1900” (Tang Tan 1900 / Detective Chinatown 1900).

Não deixa de ser peculiar que um detetive que lembra o fleumático inglês Holmes seja chinês e atue no agitado Estados Unidos. Também deve-se dizer que esta produção, embora tenha praticamente o mesmo título que a de Roman Polanski (“Chinatown”, 1974), não é similar nem está relacionada com aquela.

Proseguindo: ao chegar, Qin Fu percebe que o ambiente social contra os chineses prevalece em São Francisco, cidade que é descrita como, traz sua aparência pitoresca, ser possuidora de antros de prostituição, drogas e malandragem. A acusação aos orientais de ter esses defeitos e, também, de comer carne de animais, resulta insustentável se  comparar-se com os mesmos problemas que têm os brancos do lugar.

Há uma espécie de parêntesis no relato com um funeral e cremação, sendo uma mistura quase grotesca de drama intenso com deliberadas exagerações até um ponto quase cômico. E há sucessões ridículas, tentando, aparentemente, manter – ou desviar – a atenção do espectador. Gritos, gestos, música, tudo de forma estrondosa.

Porém, prevalecerá a morte de Alice (Anastasia Shestakova), como dito, filha de um homem poderoso, e que será o motivo revoltante na população e nas esferas sociais destacadas. Bai Zhenbang (Zhang Xincheng), o acusado sem provas, era o namorado da vítima. E, como resultado do crime, todos os chineses são considerados dignos de expulsão.

Aparece outro personagem, Gui (Baoqiang Wang), um chinês criado por um chefe indígena assassinado, e que também procura justiça. Acompanhará Qin Fu no longo caminho para achar a verdade de modo incontestável. Sucedem-se lutas, apresentando-se uma coreografia mais espetacular que apropriada, fazendo oscilar a apreciação do longa.

Principalmente nas sequências finais, aparece Bai Xuanling (Chow Yun-Fat), personagem muito interessante porque vai fortalecer a virada para ser um filme policial mais denso e, sobretudo, com caráter de reflexão social; contra o preconceito e falta de reconhecimento do trabalho que os migrantes fizeram por seu novo lugar de residência. Isso pode lembrar muitos problemas do mundo atual.

A resolução do crime central será inesperada, misturando-se às observações de Qin Fu e Gui, seu ocasional ajudante, e outros elementos bem construídos  do relato.

Finalizando este texto: “Detetive Chinatown: O Mistério de 1900”, possui muito conteúdo, embora em um envoltório cambiante e, por momentos, caótico. Inclusive com afirmações para refletir, como, por exemplo: “A China será o maior país do mundo. E esse será o maior truque de mágica”; “Todos são iguais perante a lei”.

A direção, roteiro e produção pertencem a Sicheng Chen (a primeira compartilhada com Mo Dai). A produção tem um orçamento elevado e o numeroso elenco cumpre com satisfação, embora não estejam os nomes de famosos como a bela Gong-Li ou outros orientais. Nos créditos finais aparece uma conta de uma espécie de relógio digital que pode resultar significativa se o espectador tiver paciência para ficar até lá, depois de 2 horas e 15 minutos oscilantes, e arriscar uma interpretação.

por Tomás Allen – especial para A Toupeira

*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Sato Company.

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