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Crítica: “A Lenda de Ochi”

Quem foi criança na década de 1980 cresceu com a imaginação sendo alimentada por produções relativamente simples, mas cheias de um encanto natural. As ideias descomplicadas parecem ter se perdido com o avanço das técnicas de efeitos especiais – ainda que estas tenham acrescentado uma qualidade visual infinitamente maior às produções, na maioria dos casos.

Assistir a “A Lenda de Ochi” (The Legend of Ochi) me trouxe de volta a boa sensação de acompanhar uma história que não tenta ter mais relevância do que o necessário e, por isso mesmo, acaba conquistando através de uma singeleza que lhe dá força e sensibilidade.

A narrativa escrita por Isaiah Saxon (também à frente da direção deste que é seu primeiro longa-metragem) se passa em um vilarejo fictício localizado na Ilha de Carpathia. Lá, vive a jovem Yuri (Helena Zengel) que, desde muito cedo, aprendeu a temer misteriosas figuras mitológicas conhecidas como Ochis.

Segundo seu pai, Maxim (Willem Dafoe), as supostamente perigosas criaturas foram responsáveis pela partida de sua mãe Dasha (Emily Watson). E isso faz com que haja um incessante desejo de vingança contra elas, mesmo que não se tenha absoluta certeza de sua culpa.

Tal afirmação gera uma mescla de temor / senso de superioridade em parte dos moradores locais – representados em cena por Yuri, Maxim e mais alguns adolescentes órfãos e / ou recrutados para tornarem-se caçadores / protetores da comunidade. Entre eles, Petro (Finn Wolfhard), único com participação mais evidente em tela.

Durante a caçada que abre a produção, Yuri encontra um filhote de Ochi ferido por uma das armadilhas colocadas na floresta. Se, a princípio, a ideia era exterminá-lo, algo toca o coração da garota ela toma uma inesperada decisão: cuidar de sua ferida e devolvê-lo à família.

Para isso, terá que lidar com a desconfiança do pai e com a devoção cega dos meninos que tratam com naturalidade a ideia de portarem armas e com tão pouca idade, serem mensageiros da morte.

A fantasia com toques de aventura tem inúmeros pontos positivos. Da marcante trilha de David Longstreth, que deixa o espectador tenso na mesma medida que comove, à eficiente fotografia de Evan Prosofsky, que se modifica conforme novos elementos são acrescidos à trama.

Mas, o maior acerto é mesmo a utilização de animatrônicos para dar vida aos Ochis. Uma vez que a raça é totalmente fruto da imaginação, tudo nela pôde ser criado do zero, com cada detalhe sendo pensado para gerar uma figura que conseguisse encantar o público, apesar de qualquer estranheza inicial.

A interação entre Yuri e o filhote perdido é comovente. As descobertas, o aumento da confiança, o laço de amizade que vai se criando com a passagem do tempo e a proximidade da dupla são o que há de mais bonito na obra.

Há lindas cenas que deverão ficar na mente de quem as assistir, incluindo a que tem uma pequenina lagarta e a sequência final, grandiosa e emocionante. Assim como há passagens que podem incomodar algumas pessoas, como a que mostra uma ovelha mortalmente ferida e outra envolvendo uma problemática receita.

No geral, “A Lenda de Ochi” surpreende e, embora possa ser admirado por todos os públicos, é mais provável que os saudosistas das décadas passadas tenham maior identificação e embarquem com mais facilidade em sua adorável proposta.

por Angela Debellis

*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Paris Filmes.

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