Lembro-me de que em uma das (muitas) tirinhas que já li, um personagem questiona se o conteúdo que acabou de consumir – nesse caso, um livro – era para entender ou só para sentir. Após uma reflexão, no último quadro ele afirma que gostaria de ter entendido.
Essa foi também a minha percepção ao assistir a “O Brilho do Diamante Secreto” (Reflet dans un diamant mort / Reflection in a Dead Diamond), filme belga que, sob a direção dupla de Hélène Cattet e Bruno Forzani (também responsáveis pelo roteiro) entrega um resultado nitidamente pensando para fazer o público ter as mais diversas sensações.
Em contrapartida, ao embarcar nessa montanha-russa de sons, imagens, cores e apelo estético, torna-se menos simples entender o que se vê – ainda que seja algo, no mínimo, peculiar e interessante.
A trama contada de forma não-linear tem como protagonista o ex-agente secreto Joh Diman (Fabio Testi), que aproveita sua aposentadoria em Miramare, um luxuoso hotel na Riviera Francesa. É neste cenário que acontecerá um misterioso assassinato, a partir do qual o veterano fará uma viagem por eventos passados, da época em que trabalhava como um eficiente e sedutor espião (nessa fase, interpretado por Yannick Renier).
As recordações surgem em profusão na tela, levando os espectadores a uma experiência que aumenta a distância do “tradicional” a cada frame. São imagens que transitam entre conceituais e relevantes, envolvendo elementos próprios de obras que têm o sempre enigmático mundo da espionagem como tema.
Na ânsia por descobrir (e provar) a participação de Serpentik, principal antagonista de seus tempos áureos, John empreenderá uma busca frenética, permeada por lembranças formadas a partir de identificáveis referências a outras produções do gênero.
Sob esse ponto de vista, tudo pode se tornar uma arma, desde equipamentos amplamente utilizados por agentes clássicos (e que nunca perdem o charme), até um excêntrico figurino que tem tudo para se tornar objeto de desejo de quem assiste ao longa.
Assim como qualquer acontecimento “simples” acaba se transformando em uma jornada psicodélica, seja uma partida de pôquer, uma relação sexual ou mesmo um crime. Tal artifício ajuda a nivelar o que alguns podem considerar como um exagero de violência explícita que funciona, tanto quanto incomoda, depois de um tempo.
Já próximo de seu final, “O Brilho do Diamante Secreto” confirma o que deixou parecer durante seus 87 minutos de duração: não há respostas definitivas a nenhuma das propostas de sua trama. E isso faz do percurso de cada espectador através do suspense / ação algo único, mas um pouco solitário.
Exatamente como acontece quando, diante de um olhar próprio, vemos os pedacinhos coloridos de vidro formarem imagens em um caleidoscópio e nos convencemos do valor de cada uma que, a sua maneira, mostram-se tão singulares.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pela Pandora Filmes.


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