O apreço pela ideia de ter ao nosso lado, alguém que desperte nossa melhor versão, é algo debatido incansavelmente em vários ramos. Há quem se encante com tal cenário, assim como existem aqueles que prezam pela individualidade que talvez fosse perdida, caso decidissem relacionar-se de modo mais sério com alguém.
Da literatura (com a declaração de Emily Brontë, no clássico “O morro dos ventos uivantes”: “Não importa do que são feitas nossas almas, a dele e a minha são iguais.”) à filosofia de Aristóteles, quando afirma: “O amor é formado por uma única alma habitando em dois corpos.”, são várias as representações sobre como um relacionamento duradouro impacta (nem sempre positivamente, é verdade) a existência daqueles que tem a chance de vivê-lo.
Escrita por Michael Shanks (também à frente da direção), a trama de “Juntos” (Together) tem como protagonistas Millie Wilson (Allison Brie) e Tim Brassington (Dave Franco). O desgastado sentimento que os une há uma década é posto em dúvida com o avanço de uma rotina que pouco acrescenta à evolução dos dois – seja como indivíduos ou casal.
Tentando manter o relacionamento – já que é nítido que, apesar de tudo, ainda existe amor entre eles – os personagens aceitam a proposta de mudar de vida / residência, quando Millie receber uma proposta para ministrar aulas em uma escola primária do interior dos Estados Unidos, dirigida pelo enigmático Jamie McCabe (Damon Herrisman) – que terá grande importância no desenrolar da história.
Mas, o que é visto como uma oportunidade de crescimento por ela, também é encarado como a desistência de um sonho por Tim, já que, embora nunca tenha conquistado nada no ramo, ele ainda almeja construir uma carreira como astro do rock – o se torna ainda mais complicado, devido à distância física de qualquer lugar que pudesse lhe dar uma mínima visibilidade.
Enquanto busca o difícil ponto de equilíbrio emocional, no qual uma relação saudável (seja no âmbito que for) deve se pautar, a dupla terá que lidar com algo sobrenatural e colocar em real perspectiva os fatores que fazem com que o amor se transforme em uma codependência que vai minando o vínculo em comum.
A nova fase a ser enfrentada pelo casal começa logo após a mudança de residência, quando eles decidem fazer uma trilha pelas redondezas, mesmo sem ter nenhum conhecimento prévio da área. Obviamente, isso não dá certo e eles se veem presos em uma gruta subterrânea no meio da floresta, no qual passam a noite, enquanto esperam a tempestade cessar.
Lá, uma nada convidativa fonte de água guarda um mistério sombrio aos que dela tomarem. E sim, um deles bebe (mesmo que não tenham passado tanto tempo assim no local, a ponto de ficarem desidratados e em desespero por algum líquido). Esse é o grande erro que cometem.
Aos poucos, Tim e Millie percebem que a atração que deixaram de sentir com a convivência de anos, retornou de maneira literal, já que não conseguem se manter distantes por muito tempo e, quando estão próximos, os corpos parecem querer se fundir em um só.
Com tal premissa em curso, o longa ganha boas cenas de horror corporal – em menor quantidade e menos explícitas do que eu gostaria, mas eficientes o bastante para causar mal estar (o que se espera de sequências do subgênero). Destaque para um momento envolvendo o cabelo da protagonista que me enoja só de lembrar e pode comprometer o apetite de quem levar pipoca à sessão de cinema.
Ao mesclar terror e comédia (coisa que tem acontecido cada vez uma frequência maior, muitas vezes sem sucesso), a produção não chega a ser surpreendente – até pelo que foi apresentado nos materiais prévios de divulgação – mas isso não tira o mérito alcançado através da reflexão provocada com o que se esconde em seu roteiro.
“Juntos” peca em previsibilidade, porém, se redime ao mostrar a incontrolável progressão do infortúnio vivido por Tim e Millie, chegando a uma experiência que, em seus momentos finais, subverte o que achávamos que aconteceria, para culminar em algo ainda mais perturbador.
Vale muito a pena conferir.
Observação: A quem se incomoda com cenas que incluem animais em obras de terror, cabe dizer que, logo no início do filme, há um rápido – mas bastante explícito, e quiçá, desnecessário – segmento (visto parcialmente em um dos trailers oficiais), envolvendo dois cachorros.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Diamond Films.


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