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Crítica: “Corra que a Polícia Vem Aí”

Com que idade o sentimento de nostalgia se instaura em nossas vidas? Creio não ser possível fazer uma afirmação indubitável, mas, ainda assim, é certo dizer que, em algum ponto de nossa maturidade, acabaremos com saudades de algo/alguém que marcou nossa trajetória.

Entre as faltas que sinto, a “simplicidade” (se é que essa é a melhor definição) com que as coisas ocorriam nos anos de 1980 e meados de 1990 está entre as mais sentidas. É claro que havia assuntos problemáticos (assim definidos desde sempre), mas, no geral, era fácil encontrar satisfação, incluindo o ato de parar por algumas horas para assistir a um filme/série/programa.

Quase quatro décadas se passaram desde que Leslie Nielsen surgiu em tela no papel do Tenente Frank Dreblin, protagonista do que viria a ser uma das maiores franquias de comédia da história, “Corra que a Polícia Vem Aí”.

Ao oferecer um texto que pisava fora das linhas do politicamente correto, a trilogia definiu os rumos do gênero, por um bom tempo. Através do humor pastelão, seus títulos mostravam força ao saber rir de si próprios.

Não havia intenção de identificar-se com nada além do que eram de fato: uma oportunidade de se divertir com piadas bobas e situações improváveis, sem medo do quanto isso poderia soar como ridículo.

Depois de três aventuras, a saga de Frank Drebin parecia estar completa. Até que foi anunciada a produção de um novo capítulo, mas que, sabiamente, não seria um remake (algo imperdoável de se cogitar) ou um reboot (tão desnecessário quanto), mas uma espécie de continuação direta, tendo como protagonista o filho do veterano policial.

Em “Corra que a Polícia Vem Aí” (The Naked Gun), quem toma a frente da narrativa é Frank Drebin Jr. (interpretado com brilhantismo por Liam Neeson), que, assim como o pai atua como Tenente no Esquadrão de Polícia de Los Angeles, agora comandado pela Chefe de Polícia, Davis (CCH Pounder).

Tendo que lidar com a dura possibilidade do departamento ter as atividades encerradas, Frank se verá diante de um misterioso caso envolvendo a morte de Simon Davenport (Jason MacDonald), funcionário da poderosa empresa de tecnologia Edentech, gerida por Richard Cane (Danny Huston).

A quebra do sigilo de informações sobre um artefato poderoso o bastante para afetar a humanidade em nível global e a interrupção dos planos de colocá-lo em funcionamento tornam-se a prioridade de Frank, de seu parceiro de trabalho, Ed Hocken Jr. (Paul Walter Hauser), e de sua cliente / irmã da vítima, Bete Davenport (Pamela Anderson).

Embora esse resumo possa denotar uma trama séria, tal impressão evapora já nos minutos iniciais do longa, que, logo no começo ratifica sua aptidão para levar o legado da franquia adiante.

Assim como seus antecessores, o filme propõe uma diversão descomplicada, sem a necessidade de grandes ponderações. São piadas que, mesmo quando assumem o que seria um teor “adulto”, não se tornam ofensivas, e, por isso, não devem ser encaradas de outra maneira mais analítica – como ocorre em demasia nos dias atuais.

O diretor Akiva Schaffer escreve o roteiro junto a Dan Gregor e Doug Mand, e consegue o enorme feito de preservar a essência da trilogia original, acrescentando um frescor inédito ao texto. Assim, atende o desejo do protagonista, quando, em determinada sequência, ele afirma que quer ser como seu pai, mas de um jeito diferente.

Entre inúmeros acertos, o maior foi a escalação de Liam Nesson e Pamela Anderson. A dupla não teme abraçar o exagero /absurdo, e o faz com uma seriedade, de um jeito tão natural, que deixa tudo ainda mais engraçado. Exatamente o que se espera dos personagens de uma produção que tem a missão de dar continuidade a uma marca tão relevante.

Com bem-vindas participações especiais e pequenos detalhes que surgem como uma justa homenagem às três primeiras obras, “Corra que a Polícia Vem Aí” pode ditar o futuro da comédia, tanto nos cinemas, quanto no streaming. E, a seguir a cartilha dos Dreblin, esses dias vindouros podem ser o resgate que o gênero está precisando há anos.

por Angela Debellis

*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Paramount Pictures.

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