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Crítica: “O Testamento de Ann Lee”

“À nossa frente, só há a paz surgindo.”

Produções que trazem à pauta qualquer debate acerca de religião correm o grande risco de não terem a interpretação devida por parte dos espectadores. Afinal, esse continua sendo um assunto bastante delicado e a opinião particular de cada um pode afetar a experiência de assistir a um filme ou ler um livro que trate a respeito.

Ao levar para as telas a verdadeira história da mulher proclamada por centenas de seguidores como a segunda vinda e a personificação feminina de Cristo, no século XVIII, a diretora Mona Fastvold (também co-roterista ao lado do marido, Brady Corbet) encara o desafio e entrega uma obra cuja grandiosidade supera qualquer problemática que o tema possa inspirar.

Em “O Testamento de Ann Lee” (The Testamento f Ann Lee), somos convidados a acompanhar a criação do movimento religioso conhecido como “Shakers”, que prega uma vida pautada na igualdade social e de gênero, na qual deve-se praticar o celibato e a confissão de todos os pecados. A ideia é que essas iniciativas aproximem os praticantes de Deus.

A líder da utópica seita é Ann Lee (Amanda Seyfried, provando o que já era sabido: sua extrema competência em conduzir musicais – sejam cômicos, ou, nesse caso, dramáticos). Desde muito jovem, a protagonista afirmava ter visões celestiais que a levam ao posto máximo do grupo e a fazem ser adorada como uma divindade.

Segmentado em três capítulos, o longa conta a trajetória da inglesa Ann Lee. Da infância sem oportunidades (por questões financeiras e por ser mulher, em uma época na qual isso era visto como um demérito) a ascensão como nome forte o bastante para incomodar outras religiões e inspirar quem buscava por um caminho alternativo.

Conforme dito em determinado momento do filme, ela transformou seu sofrimento em evangelismo. Suplício esse causado, principalmente, pela perda dos filhos que teve com seu marido, Abraham Standerin (Christopher Abbott). As quatro crianças faleceram antes mesmo de completarem um ano de vida.

A trama acompanha o crescimento no número de devotos a Ann Lee e a decisão de ampliar seus horizontes, quando saem de Manchester, na Inglaterra, em direção à América, até se estabelecerem na cidade nova iorquina de Niskayuna.

Durante o não muito fácil período de construção de suas moradias, a pregação da palavra em rituais marcados por cantos e coreografias quase hipnóticas (musical e visualmente impressionantes) é o que parece dar força aos que passam a se dedicar a esse estilo de vida e comportamento.

A impressão é a de haver confiança e tranquilidade incessante, mas, olhando mais a fundo, percebe-se que algumas pessoas ainda têm dúvidas sobre as escolhas feitas e o que o futuro lhes reserva a partir disso.

Também há o perigo real na forma daqueles que, mais do que não aceitar as convicções do próximo, se acham no direito de decidir quem merece uma segunda chance de arrepender-se de duas decisões e viver da maneira que lhes é determinada.

É impossível resumir a base da narrativa de “O Testamento de Ann Lee” apenas ao cunho religioso. Em seus 137 minutos de duração, sob uma trilha sonora sublime composta por Daniel Blumberg, o longa trabalha outros assuntos tão relevantes quanto, seja no âmbito da política, de relacionamentos abusivos ou da intolerância em geral. E se transforma em uma boa pedida para se refletir sobre coisas inaceitáveis que ainda acontecem nos dias atuais.

por Angela Debellis

*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela 20th Century Studios.

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