
“Você está apaixonado por mim?”
O que muitos chamam de conflitos de adolescência, também podem ser encarados como a dificuldade em se precisar tomar decisões que afetarão a maior parte de nossas vidas, quando, tantas vezes, nem mesmo temos a real noção da amplitude dessa responsabilidade.
Descendente de uma família abastada da França, o protagonista de “Enzo” (Enzo) não parece feliz com o futuro que o aguarda – mesmo que este se mostre bastante confortável. Aos 16 anos, o jovem (interpretado pelo estreante Eloy Pohu) decide abandonar os estudos por “não se adaptar ao ensino tradicional”.
Com um talento que denota ser natural para artes – em especial a área de ilustrações – ele deixa de lado o que talvez fosse sua vocação, para dedicar-se a outra função, no mínimo surpreendente: a de aprendiz de alvenaria.
Há oito meses atuando em canteiros de obras, mesmo sem mostrar quase nenhuma aptidão para isso, a escolha de Enzo é questionada por seu chefe, Sr. Corelli, que decide falar com os pais do menino.
A surpresa do empreiteiro quando chega à residência de seu estagiário é a mesma dos espectadores, uma vez que alguém buscando uma especialização desse tipo, quase que certamente não teria condições de morar em uma mansão à beira-mar.
No local, além do adolescente, vivem seus pais – o professor de matemática, Paolo, Pierfrancesco Favino; a engenheira, Marion (Élodie Bouchez); e seu irmão mais velho, Victor (Nathan Japy), que está prestes a entrar em uma renomada universidade.
Enquanto demonstram um relacionamento que beira o superficial, com preocupações frívolas regadas a banhos de piscina e festas, os parentes não demonstram ter ideia do quanto se distanciam dos valores e anseios do caçula da família.
Se dentro de casa, Enzo se sente um peixe fora d’água (o que é um paradoxo quando descobrimos o quanto gosta de nadar- seja em sua própria piscina limitante ou em algum lago mais amplo), tal sensação desaparece quando está no trabalho.
Durante a mais recente construção na qual trabalha, divide funções com diversos colegas, mas tem uma afinidade maior dos dois imigrantes ucranianos: Vlad (Maksym Slivinskyi) e Miroslav (Vladislav Holyk). É com eles que Enzo começará a enxergar novas possibilidades e a reconhecer que não deseja seguir os passos de seus familiares, por quem demonstra até mesmo uma espécie de desprezo parcialmente velado.
Quando seus amigos são convocados a voltarem ao país de origem, para lutar na guerra, é hora do jovem assumir o que sente, mesmo com o temor de não ser correspondido. Vlad é daquele tipo de homem que faz questão de contar vantagens, mostrar fotos e vídeos de suas conquistas. Como receberá a notícia de que também despertou o desejo de um garoto em plena descoberta da sexualidade?
Ainda que ponha em discussão vários assuntos pertinentes, “Enzo” não o faz de maneira dura. Existe uma visível afetividade ao confrontar tópicos que, se mostrados de outro modo, corriam o risco de não serem recebidos adequadamente pelo público.
Sensato e descomplicado, o roteiro de Robin Campillo (também à frente da direção), Laurent Cantet, Gilles Marchand faz do drama francês que chega aos cinemas, uma produção sensível e que tem plena ciência da mensagem que almeja passar.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pela Mares Filmes.


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