“Ainda podemos fazer um bom trabalho juntas.”
Poucas coisas são tão, simultaneamente, imprevisíveis e óbvias, quanto o mercado da moda. Algo visto como ultrapassado no momento atual, corre um grande risco de, daqui a algumas estações, ser considerado tendência.
Mas, em um mundo em que tudo se torna descartável cada vez mais rápido, até clássicos atemporais, daqueles que parecem ocupar postos inalcançáveis, acabam tendo sua qualidade e importância postas em dúvida de algum modo.
Esse é o dilema que Miranda Priestly (Meryl Streep) terá que enfrentar em “O Diabo veste Prada 2” (The Devil wears Prada 2), quando verá seu cargo e sua carreira em risco, devido à modernização da Runway.
Antes um sucesso inquestionável de vendas, a revista física não é mais objeto de desejo de amantes da moda, que, em sua maioria, agora prefere acompanhar as matérias online e contar com a velocidade / mérito questionável das postagens em redes sociais.
Vinte anos depois dos eventos do primeiro filme, descobrimos que Andy Sachs (Anne Hathaway) deixou o glamour dos bastidores de Tapetes Vermelhos e passarelas de lado, para se dedicar a uma área completamente diferente do jornalismo, trabalhando como correspondente no jornal Vanguard.
Até que, durante uma vitoriosa cerimônia de premiação, ela e seus demais colegas de veículo são dispensados através de uma simples mensagem de texto. A praticidade dos tempos modernos chega junto de uma frieza que coloca a percepção da ética (seja em qualquer área) em um patamar, no mínimo, problemático.
É quando Irv Ravitz (Tibor Feldman), dono do Grupo de Mídia, Elias Clark – que inclui a Runway – e seu filho, Jay (B.J. Novak) entram em contato com Andy, com uma proposta que parece irrecusável: retornar à redação da revista, para cuidar da Editoria de Matérias Especiais. Uma clara e desesperada tentativa de recuperar o prestígio diante dos anunciantes insatisfeitos com a recente condição da publicação.
A surpresa de Andy ao chegar ao luxuoso prédio é a mesma que a nossa: Embora as coisas permaneçam semelhantes na superfície – com Miranda impondo um respeito que soa absoluto – há algo de muito dissonante no ar. Resultado de duas décadas de mudanças radicais na sociedade, que, sob um perigoso viés de exagero, não aceita mais passivamente comportamentos que julga antiéticos.
Isso coloca Miranda – prestes a conseguir o cargo de Chefe de Conteúdo Global da Elias Clark – frente a mais um impasse, ao ter que se adequar a uma realidade onde muitas pessoas têm uma assustadora facilidade para iniciar inflamadas discussões, a partir de motivos que nem sempre procedem.
A temerária limitação do que pode / deve ser dito ou feito fica bem clara através da aparição de Amari (Simone Ashley), a nova assistente que serve como uma espécie de “consciência externa” à Editora-Chefe da Runway.
Dirigido por David Frankel, o longa também traz de volta a carismática Emily Charlton (Emily Blunt), agora ocupando um importante cargo em uma grande marca varejista, enquanto administra um relacionamento com um milionário da tecnologia, Benji Barnes (Justin Theroux), que poderá lhe proporcionar a realização de um sonho antigo deixado para trás, mas nunca esquecido por completo.
E a trama (escrita por Aline Brosh McKenna, exclusivamente para a produção, sem ser baseado em um livro, como seu antecessor) não estaria completa sem o retorno de Nigel Kipling (Stanley Tucci), que segue com seu humor sarcástico impecável, sendo, mais uma vez, um dos pilares fundamentais para a manutenção da ordem no histriônico universo em que trabalha.
Rever um dos melhores quartetos das telonas e, por algumas horas mergulhar na excelência dos figurinos criados por Molly Rogers é uma experiência ótima, mas que, assim como tantas peças festejadas nos disputados eventos e desfiles, pode não ter o mesmo impacto fora das passarelas.
“O Diabo veste Prada 2” é como uma peça curinga, que todo guarda-roupa deve ter. Daquele tipo que nem sempre sabemos (ou temos oportunidade para) usar, mas, que a lembrança de estar lá nos agrada.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela 20th Century Studios.


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