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O mercado pet brasileiro perdeu fôlego em 2025, pressionado pela alta no preço das rações e pela queda no consumo. Em um país onde 76% dos lares têm animais de estimação, cerca de 170 milhões de pets, segundo a ABRAS, um movimento cresce na contramão: tutores começam a substituir a ração tradicional por alimentação fresca.
Após anos com crescimento acima de dois dígitos, o setor registrou alta de 3,5% no faturamento, abaixo da inflação de 4,26%, o que representa uma queda real. Foi a primeira vez desde 2018 que isso ocorreu, de acordo com pesquisas. Mais do que um recuo pontual, o dado indica uma mudança estrutural: o modelo baseado no consumo massivo de ração começa a dar sinais de esgotamento em um cenário de maior pressão de preços.
A ração segue como o principal motor econômico do segmento, responsável por cerca de 53% do faturamento. Só no último ano, foram R$ 41 bilhões movimentados nessa categoria. Com custos impactados por fatores como câmbio e insumos, o aumento de preços reduziu o volume consumido e afetou diretamente o desempenho do setor, abrindo espaço para o avanço de alternativas.
Alimentação fresca avança e muda a lógica do setor
É nesse contexto que a alimentação fresca ganha força. O movimento acompanha uma mudança mais ampla no comportamento do consumidor, que passou a questionar ingredientes, níveis de processamento e qualidade nutricional, um padrão já observado na alimentação humana e agora replicado na dieta dos pets.
O estudo What The Future: Pets 2025, da Ipsos, aponta que saúde, bem-estar e qualidade dos ingredientes estão entre os principais critérios na escolha de produtos, consolidando esse comportamento como dominante.
Na prática, isso impulsiona categorias como alimentação natural, refeições frescas e dietas personalizadas, com crescimento concentrado no segmento premium. Trata-se de um público disposto a pagar mais por qualidade, mas que também exige conveniência, transparência e consistência na entrega.
Se antes a decisão passava por escolher a melhor ração, agora envolve definir como, quando e com que frequência alimentar o pet.
O desafio, no entanto, está na operação. Diferentemente da ração seca, alimentos frescos exigem cadeia refrigerada, logística mais complexa e reposição frequente, fatores que pressionam modelos tradicionais de distribuição.
Recorrência e tecnologia redesenham a cadeia
Nesse cenário, a recorrência deixa de ser apenas uma estratégia comercial e passa a funcionar como infraestrutura de negócio. Como os produtos têm ciclo curto de consumo, tutores tendem a aderir a modelos de assinatura, com entregas programadas.
Para as empresas, isso traz previsibilidade de demanda, maior controle de produção e redução de desperdícios. Para o consumidor, conveniência. Mais do que isso, o modelo transforma a relação entre marca e cliente, criando um canal direto e contínuo, com acesso a dados reais de comportamento e maior potencial de fidelização.
“Quando a operação é recorrente, a empresa passa a antecipá-la. Isso muda completamente a lógica de produção, logística e relacionamento com o cliente”, afirma a CEO da Food2C, a empresa que viabiliza o modelo D2C (Direct to Consumer) para a indústria de alimentos, bebidas e pet, Einat Eisler Carasso.
Historicamente concentrado em pet shops e supermercados, o setor começa a incorporar novos formatos. Marcas que operam com alimentos frescos encontram no modelo direto ao consumidor (D2C) uma alternativa para contornar limitações do varejo, como perda de margem, baixa visibilidade de dados e restrições logísticas.
Dados da Opinion Box mostram que 23% dos tutores já compram alimentos para pets online, atrás das lojas físicas especializadas (60%) e supermercados (28%), mas em trajetória de crescimento.
Nesse contexto, ganha espaço uma nova camada de infraestrutura voltada a viabilizar esse modelo. Plataformas especializadas passam a integrar e-commerce, pagamentos, logística refrigerada e gestão de pedidos em uma única operação, permitindo que indústrias e produtores criem canais próprios de venda direta.
“A alimentação fresca exige uma operação muito mais complexa do que a ração tradicional. Sem tecnologia e logística integradas, o crescimento fica limitado ou dependente do varejo. O que vemos agora é a construção de uma nova infraestrutura para o setor”, diz Einat.
Empresas mais recentes já nascem dentro dessa lógica. É o caso da Raw Raw, marca brasileira de alimentação natural para cães que opera desde o início no modelo direto ao consumidor. Segundo Fabio Lee, CEO da empresa, o perfil do cliente também mudou.
“O tutor que busca alimentação natural para o pet já chegou pesquisando, ele leu sobre dieta bioapropriada, comparou ingredientes, entendeu por que a comida crua faz diferença. Esse perfil de comprador não precisa de prateleira para ser convencido: ele precisa de conveniência, consistência na entrega e confiança no produto. O modelo direto ao consumidor responde exatamente a essas três necessidades”, ressalta o CEO da Raw Raw, marca brasileira de alimentação natural para cães que opera na lógica D2C.
O exemplo ilustra um movimento mais amplo: marcas que antes dependeriam de prateleiras físicas passam a construir relacionamento direto com o cliente, controlando toda a jornada, da compra à entrega, e acumulando dados que o varejo tradicional raramente compartilha.
A combinação entre alimentação fresca, recorrência e venda direta aponta para uma reconfiguração do mercado pet nos próximos anos. Se antes o crescimento estava ligado à expansão do varejo e ao aumento da base de consumidores, agora passa pela capacidade de operar com eficiência, garantir qualidade e construir vínculos diretos com o tutor.
Em um cenário de desaceleração, o mercado não deixa de crescer, mas cresce de outra forma.
da Redação A Toupeira


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