“Quando tudo mais falhar, você atira a verdade neles.”
Há uma frase dita pelo dramaturgo e escrito brasileiro Nelson Rodrigues, que não apenas segue relevante, como parece cada vez mais atual, vista a crescente incapacidade de reflexão que acomete tantos indivíduos no âmbito social: “Toda unidade é burra”.
Sendo assim, parece desnecessário o debate sobre a recepção mista direcionada ao novo longa do astro Tom Cruise, sua primeira parceria com o diretor Alejandro González Iñárritu, cuja premiada filmografia não costuma ser definida como simples de agradar o público.
Provavelmente a ser lembrada na vindoura temporada de premiações, a trama de “Digger” (Digger) gira em torno das duvidosas atitudes de um mega empresário detentor de uma fortuna bilionária e do curioso “título” de homem mais poderoso do mundo.
Interpretado com brilhantismo por Tom Cruise (que, mais uma vez mostra uma versatilidade louvável, mesmo debaixo de camadas de próteses e maquiagens), Digger Rockwell tem plena consciência de seu poder, mas precisa reavaliar com urgência, o grau de suas responsabilidades.
Líder absoluto na área de escavação de petróleo, o solitário protagonista (cuja única companhia frequente é sua gata muito idosa, Maggie), vê sua empresa diante de uma grande catástrofe ambiental causada por um vazamento de gás metano em uma plataforma de um bilhão de dólares, localizada na Groelândia. Tal incidente culmina em uma fenda gigantesca em uma geleira e no descolamento de um gigantesco iceberg.
Após as alarmantes explicações de seu diretor de segurança e uma estimativa de prejuízo de 18 trilhões de dólares, Nirav Ganesh (Riz Ahmed, primoroso), Digger descobre que tem cerca de três dias para reverter o quadro, antes do impacto – quando o norte da Europa será atingido e milhões de vidas serão postas em risco.
Com o perdão do trocadilho, essa é apenas a ponta do icerberg de acontecimentos / surpresas e reviravoltas que compõem a narrativa do longa. Em comum, a hipocrisia caraterística dos indivíduos “poderosos” (entendam-se políticos e afins), que julgam serem qualificados para resolver questões cuja gravidade é inversamente maior do que a capacidade dos que imaginam que podem encará-las.
Tal papel de liderança questionável cabe a Compson (John Goodman em interpretação divertidíssima), Presidente dos Estados Unidos, que, apesar de tudo, reconhece a importância das atividades empresariais de Digger, mesmo que estas resultem em problemas de escala global.
O roteiro de Alexander Dinelaris, Nicolás Giacobone, Sabina Berman e do próprio Iñárritu é tão astuto, quanto corajoso e não se incomoda em colocar diante dos espectadores situações que fazem refletir sobre a nossa própria sociedade, na qual juízos de valores são flutuantes (de acordo com interesses do momento) e há uma espécie de cegueira conveniente quando um futuro catastrófico parece iminente e inevitável.
Para contar de maneira crível, uma trama que abraça – sem nenhum pudor – o exagero / cartunesco, é fundamental ter um elenco que convença a plateia de que os absurdos que chegam em ondas talvez não sejam tão disparates. E “Digger” conta com profissionais que fazem jus a esse desafio.
Além dos já citados, há de se aplaudir a atuação de Michael Stuhlbarg, como o vice-presidente Eddie; a rápida (porém, adequada) participação de Sandra Hüller, no papel de Emma, meia-irmã do bem-sucedido “escavador”; e o sempre bom trabalho de Jesse Plemons, que dá vida ao produtor Kenny.
Durante seus 129 minutos de duração, a obra tem um ritmo peculiar, mas que não se perde em nenhum ponto. Assim como tem elementos que podem dar a sensação de não se adequarem à proposta, mas que são devidamente explicados, pode acreditar.
Cabe também ressaltar a fotografia de Emmanuel Lubezki e sequências permeadas por longos diálogos (que transitam entre a seriedade e a galhofa). Mas nada supera o fervoroso monólogo declamado por Tom Cruise no Parlamento Europeu, em um dos momentos mais impactantes da produção.
E, quando o fim (do longa? Do mundo?) se aproxima, ainda existe tempo para fazer o espectadores se surpreenderem mais uma vez. Que filme incrível e estranhamente singular é “Digger”.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Warner Bros. Pictures.


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