“Cada um tem o que merece no final”
Ainda que seja um tópico exaustivamente debatido há tempos, adaptações literárias para os cinemas continuam rendendo posicionamentos acalorados. Há obras que ganham uma surpreendente relevância quando saem do papel e migram para as telas, enquanto outras mostram que talvez não funcionem tão bem em outra plataforma.
Escrito por Colleen Hoover, e com um aviso de classificação etária para maiores de 18 anos impresso na capa, “Verity” (Verity) é um thriller daqueles que prendem a atenção desde as primeiras páginas.
Com exceção feita a um aparente exagero de sequências “hot” – que acabam se tornando até mesmo repetitivas – a proposta é colocar o leitor na posição de observador de uma trama que envolve elementos e situações capazes de gerar um crescente desconforto (no melhor sentido da expressão, diante do esperado).
Lançada em 2018, a obra ganha sua versão cinematográfica sob a direção de Michael Showalter e aposta no carisma de seu elenco para dar vida aos protagonistas da história sombria que transformou o livro em um best-seller (mais uma para a lista da autora, que já teve outros dois trabalhos levados às telonas: “É assim que acaba”, em 2024; “Se não fosse você”, em 2025).
Tal qual o próprio título indica, o longa gira em torno de Verity Crawford (Anne Hathaway), renomada escritora da série “As Nobres Virtudes”, cujos seis primeiros volumes fazem um estrondoso sucesso, por trazer as histórias contadas sob a perspectiva do vilão.
A protagonista mora em uma luxuosa residência ao lado do marido, Jeremy Crawford (Josh Harnett) e do filho, Crew (Brady Wagner). Mas, a rotina perfeita mostra-se frágil e superficial após a morte precoce da outra filha do casal, Harper (Sienna Kulovitz), e do acidente de carro que deixa Verity em um estado quase vegetativo.
Visando não comprometer o contrato assinado pela esposa, que previa o lançamento de nove capítulos da saga, Jeremy busca uma ghostwritter que esteja à altura para escrever os três volumes finais. Esse será o papel de Lowen Ashleigh (Dakota Johson) que, apesar de já ter exemplares próprios no mercado, está longe de ser alguém influente no ramo literário.
Com uma proposta financeira irrecusável e a chance de alcançar seu quinhão de popularidade, Lowen se muda temporariamente para a casa dos Crawford, a fim de ter acesso ao escritório onde Verity mantinha dezenas de anotações que poderão ajudá-la a dar sequência à franquia que já tem uma legião de fãs estabelecida.
Dentre esse material, ela encontra um pendrive contendo o rascunho de uma autobiografia repleta de segredos e confissões. O conteúdo ricamente detalhado por Colleen Hoover, embora bem amenizado pelo roteiro de Nick Antosca, ainda é capaz de perturbar os espectadores, pela frieza e naturalidade como é disposto.
Enquanto lida com a inesperada descoberta e põe em dúvida se realmente deve dar seguimento ao trabalho que se propôs fazer, Lowen acaba se envolvendo com Jeremy e tornando-se mais uma peça no intrincado jogo que constitui a relação dos membros da família.
Assim como tantos que já vieram e outros que ainda virão, “Verity” fica naquele ponto em que talvez seja mais bem aproveitado por quem não conhece a publicação na qual se baseia. Ao apostar em mudanças bruscas – seja na retirada de personagens ou na amenização de pontos cruciais à narrativa, o filme perde boa parte do conteúdo que faz a leitura da obra original ser tão marcante.
É claro que determinadas passagens seriam impossíveis de se transpor para as telas de um jeito que mantivesse o impacto sem parecer algo gratuito, apenas para chocar, mas ignorar detalhes fundamentais é complicado e até prejudicial ao resultado. Não há pontos dignos de risada no que vemos nas páginas, por outro lado, a adaptação para os cinemas deixa a entender que não há preocupação em parecer frágil nesse quesito.
A via que for tomada (assistir ao filme primeiro ou ler o livro antes), com certeza ditará a maneira como “Verity” vai mexer com o público ao término da sessão.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Sony Pictures.


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