Como quase tudo na vida, terror é algo muito subjetivo. O que é aterrorizante para uns, às vezes soa cômico para outros. Se a realidade – ou o que se aproxime dela – é o que há de mais cruel à parte da audiência, os demais espectadores podem se envolver mais facilmente, quando se tratam de propostas envolvendo o sobrenatural.
Talvez pensando em todas essas vertentes, “A Hora do Mal” (Weapons) assume uma inteligente posição que transita com eficiência entre a seriedade de uma história tratada quase como se fosse um documentário real e a entrega de uma conclusão que traz elementos longe de serem considerados usuais.
Escrita por Zach Cregger, a trama se passa em Maybrook, uma pequena cidade americana que se torna cenário de uma tragédia sem precedentes, quando, sem nenhuma explicação plausível, dezessete crianças fogem de suas casas, ao mesmo tempo, durante uma madrugada.
Com a comprovação de que nenhuma delas foi levada de forma violenta, constando nas imagens de câmeras de segurança apenas o que parecem ter sido saídas voluntárias e individuais, a comunidade não sabe por onde começar a inglória busca pelos desaparecidos. Em comum, além de serem moradores da vizinhança, o fato de todos fazem parte da mesma sala de 3º ano de uma escola de ensino elementar. Da turma composta por dezoito alunos, apenas um aluno não sumiu: o introspectivo Alex Lilly (Cary Christopher).
Sem saber a quem culpar, as famílias buscam respostas a ermo, mas não sem antes escolher alguém que sirva de alvo para ataques verbais e físicos. Posição ocupada por Justine Gancy (Julia Garner), professora responsável pela classe dos alunos perdidos. A educadora passa a ser considerada suspeita, ainda que não haja nada de concreto para incriminá-la. Mas, após um mês sem nenhuma notícia, o desespero dos familiares torna-se muito maior do que o bom senso que os impediria de fazer julgamentos à revelia.
O quanto e de que forma a subtração das crianças impactou a rotina da comunidade é o que vemos durante os 128 minutos de duração do longa. A narrativa, contada sob o ponto de vista de seis personagens distintos, ganha importantes camadas a cada novo capítulo mostrado em tela.
Do sentimento de perda e impotência de Archer Graff (Josh Brolin), pai de um dos meninos, à ineficácia da polícia local – aqui representada pelo oficial Paul (Alden Ehrenreich), cujas batalhas internas influenciam em suas ações profissionais – todos os personagens têm algo a dizer, no final das contas.
“A Hora do Mal” acerta ao não temer a ousadia. Encontrar harmonia nas proporções de terror, suspense, drama e até mesmo comédia (em alguns momentos pontuais) não é uma tarefa simples, ainda mais quando se opta por um ritmo pouco frenético e que preza pela real contemplação do público.
Um conjunto de bons elementos contribui para o êxito da obra: visualmente, a “sufocante” fotografia de Larkin Seiple, além de impactantes sequências que devem ficar nos pensamentos dos espectadores e funcionam melhor do que os nem sempre efetivos jumpscares, com destaque à interpretação de Bennedict Wong, no papel de Marcus, diretor da escola infantil e chefe de Justine.
Textualmente, as várias (e importantes) crítica sociais observadas nas entrelinhas do roteiro e que, de tão necessárias nos dias atuais, acabam assustando mais do que qualquer figura pensada apenas para gerar incômodo em uma sala de cinema.
Se possível, vá ao cinema sem muitas informações sobre o filme. Saber detalhes não estraga, mas pode comprometer a experiência de descobrir, pouco a pouco, o mal escondido por trás das enigmáticas 2h17 da madrugada de uma quarta-feira comum.
por Angela Debellis
*Título assistido em Pré-Estreia promovida pela Warner Bros. Pictures.


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