“A Única certeza que temos como seres humanos é de que todos vamos morrer. E, se você tiver sorte, vai poder escolher como passa seus últimos momentos”
Os fãs de Stephen King têm muito o que comemorar: 2025 trouxe duas adaptações cinematográficas de obras do autor norte-americano, que representam dois lados de seu estilo criativo. Além disso, a série inédta “IT – Bem-Vindos a Derry” estreará em 26 de outubro na HBO Max.
Enquanto “A Vida de Chuck” conta uma história delicada e reflexiva, a narrativa de “A Longa Marcha: Caminhe ou Morra” (The Long Walk) – roteirizada para as telas por J. T. Mollner – também faz pensar, mas de uma forma bem mais incisiva e dolorosa.
Lançado em 1979, – ou seja, bem antes de outras produções que têm propostas semelhantes em alguns aspectos – o livro homônimo de King (assinando sob o pseudônimo de Richard Bachman) faz um relato poderoso de um mundo distópico. Dezenove anos pós-guerra, os Estados Unidos vivem sob um rigoroso regime militar responsável pela realização anual de uma competição mortal, sem nenhum tipo de remorso.
A oferta é tentadora: Cinquenta jovens são escolhidos para participar de uma prova de resistência (por assim dizer) pelas estradas do Maine. Aquele que permanecer até o final, ganhará uma incrível soma em dinheiro e terá um desejo (por mais absurdo que pareça) realizado imediatamente.
O problema é que esse “final” não existe, pois não há linha de chegada ou limite para encerrar o percurso. Uma vez que se começa a tal longa caminhada do título, só é possível sair dela como vencedor ou morto.
Mais absurda do que aceitar tornar-se um dos competidores (por mais que isso possa mudar completamente a vida de quem sobreviver à prova) é a anuência da população, que assiste à degradação física e emocional dos jovens, conforme as horas se passam e os obstáculos (fome, sede, sono, lesões físicas, intempéries, caminhos tortuosos e elevados, arrependimento) se tornam cada vez mais difíceis de ultrapassar.
Também desafiadora é a ideia de ter que passar por tudo sozinho, já que não é recomendado formar alianças ou iniciar amizades durante o percurso, afinal, só haverá um único ganhador ao término da jornada (seja sob a ótica da caminhada ou da própria vida).
Indo na contramão dessa orientação, Ray Garraty (Cooper Hoffman) e Peter McVries (David Jonsson) tornam-se uma das duplas mais interessantes que já vi (nas páginas ou nas telas). Ainda que saibam das implicações em se manter em pé, quando cada vez mais adversários sucumbem ao cansaço e à consequente frieza dos soldados que acompanham o trajeto – obviamente em veículos motorizados – eles decidem enfrentar o teste lado a lado.
Esse companheirismo se estende a outros jovens, entre os quais, Hank Olson (Ben Wang), e Arthur Baker (Tut Nyuot), que têm participações menores, mas memoráveis. Como sempre acontece, há também quem se julga superior – mesmo estando em situação equivalente aos outros: nesse caso, o antagonista atende pelo nome Gary Barkovitch (Charlie Plummer) e, rapidamente se torna aquele tipo que adoramos torcer contra.
Contudo, ninguém é mais merecedor de nossa antipatia do que “O Major” (Mark Hamill), representação física da falta de respeito dirigida a quem arrisca tudo em busca de uma vida digna, por não mais aguentar a triste realidade imposta aos cidadãos comuns.
Fora alguns momentos de flashback, a trama se passa quase que integralmente na estrada, todavia, o que poderia ser um sinônimo de amplitude, acaba se tornando uma espécie de prisão, com espaço delimitado pelos limites do asfalto e da qual não se pode escapar. O que provoca uma constante sensação de sufocamento que faz o espectador questionar até que ponto King teve coragem de ir.
A fotografia de Jo Willems acrescenta ainda mais qualidade à direção de Francis Lawrece – já familiarizado em retratar competições extremas. Um campo de girassóis e cavalos pastando servem como pungentes contrapontos a todo horror representado graficamente através do ótimo trabalho de uma extensa equipe de maquiagem e à manutenção da classificação etária para maiores de 18 anos.
Quanto é fidelidade na adaptação, há algumas mudanças pontuais que não chegam a causar impactos significativos, mas uma, em especial, alcança um resultado em tela ainda mais perturbador do que o descrito no livro e, embora eu não seja uma grande entusiasta de alterações no conteúdo original, tenho que confessar que fiquei mais satisfeita com essa versão.
Como dito em determinado ponto do filme: “Podemos ter três horas, três dias, três décadas. Esse momento importa”. Sem dúvida, esse é o momento de celebrar a mente e a genialidade do Rei do Terror. “A Longa Marcha: Caminhe ou Morra” é um dos melhores títulos do ano, até aqui.
Corra (ou melhor, ande, para poupar energia) até o cinema mais próximo.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Paris Filmes.


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