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Crítica: “A Meia-Irmã Feia”

A releitura de contos clássicos – em especial voltada ao terror – está em alta há algum tempo, gerando títulos que vão da qualidade duvidosa a versões que surpreendem por sua originalidade, ao oferecer uma nova visão de algo que já é tão aclamado pelo grande público.

É o caso de “A Meia-Irmã Feia” (Den Stygge Stesøsteren / The Ugly Stepsister), longa norueguês que traz um frescor inédito à história de uma das princesas mais celebradas da literatura. Cinderela (aqui, chamada Agnes e interpretada por Thea Sofie Loch Næss) deixa de ser a protagonista, mas ganha camadas inesperadas que fazem dela uma personagem bem mais complexa (para o bem ou para o mal) do que a popularmente conhecida.

Dessa vez, os holofotes estão sobre Elvira (Lea Myren), uma das meias-irmãs “feias” da fábula. A narrativa mostra sua chegada – ao lado da mãe Rebekka (Ane Dahl Torp) e da irmã caçula, Alma (Flo Fagerli), à casa de Otto (Ralph Carlsson), pai de Cinderela e seu futuro padrasto.

Retratada como uma romântica incorrigível, a jovem sonhadora almeja se casar com o Príncipe Julian (Isac Calmroth), a quem idealiza como o homem perfeito – coisa que, como fica bem claro ao público, ele está longe de ser.

Mas, se a realidade é fria e cruel, a imaginação da protagonista é representada através de uma fotografia mais suave com tons de fantasia, para delimitar as barreiras que as separam. Ótimo trabalho de fotografia de Marcel Zyskinal.

O grande obstáculo para conquistar o coração do rapaz – ou pelo menos é nisso que ela acredita – está no fato de sua aparência não atender aos requisitos impostos para ser reconhecida como bela ou desejável pela sociedade. Para reverter tal quadro desvantajoso, ela se submete a intervenções estéticas, cuja invasividade beira (para não dizer ultrapassa) o grotesco.

De um nariz remodelado a base de fraturas provocadas por um martelo e um formão, a cílios costurados (literalmente) em suas pálpebras, Elvira aceita tudo – não com naturalidade, mas sem nenhuma reação contrária – seja por temor à rigidez com a mãe lhe trata, ou pela obsessão em tornar-se a escolhida do Príncipe.

E os espectadores acompanham cada etapa que é mostrada sem receio de parecer exagerada, mas com o intuito de nos lembrar que coisas absurdas, às vezes são consideradas aceitáveis, quando a necessidade de se encaixar é maior do que o amor próprio e a autoestima de alguém.

Com a iminente realização de um baile no castelo, a garota precisa de mais do que o Dr. Esthétique (Adam Lundgren) – sim, esse é o sugestivo nome do cirurgião plástico – consegue lhe proporcionar. E acaba aceitando um estranho oferecimento de Madame Vanja (Katarzyna Herman), uma das instrutoras da escola de etiqueta do reino.

Acredite quando digo que basta saber isso, sem muitos outros detalhes que possam comprometer a experiência, no mínimo nauseante, que o roteiro escrito por Emilie Blichfeldet (também à frente da direção) é capaz de provocar.

E essa é exatamente a proposta de “A Meia-Irmã Feia”, causar um incômodo quase insuportável, para levar à sempre importante discussão sobre os limites que devem – ou não – ser ultrapassados em busca do que se julga perfeito. Ainda mais quando se trata de aparência estética e todas as pressões que são exercidas, todos os dias – principalmente sobre as mulheres, desde muito cedo em suas vidas.

Destaque para os figurinos criados por Manon Rasmussen que, embora mantenham uma aura bastante adequada a contos de fadas, o fazem de uma maneira que coloca o senso de realeza em um patamar pouco desejável, possibilitando notar que por trás da máscara da excelência, se esconde algo bem mais perturbador.

“A Meia-Irmã Feia” não é uma obra fácil de se assistir, mas uma vez que se embarca em sua trama, é impossível tirar os olhos da tela, até que se findem os créditos. Umas das grandes surpresas de 2025.

por Angela Debellis

*Título assistido em Sessão Especial promovida pela A2 FilmesMares Filmes

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