
“Faça tudo que puder para salvar uma única alma do sofrimento.”
Preocupar-se em como retratar passagens execráveis da história, com o valor que merecem, mas sem que tal intento se converta em algo que teria o incômodo sobrepondo-se ao interesse do público é algo comum a profissionais que decidem seguir tal caminho.
Ao adaptar o conteúdo de “O Diário de Anne Frank” como uma graphic novel em 2017, Ari Folman e David Polonsky conseguiram manter a relevância dos relatos e alcançar um público que talvez fosse relutante em ler a obra original.
Em 2022, um novo roteiro de Folman (dessa vez com ilustrações de Lena Guberman) deu origem a outra graphic novel, que virou animação e agora chega exclusivamente ao streaming Filmelier+: “À Procura de Anne Frank” (Where is Anne Frank).
Passada em dias atuais, a trama gira em torno de Kitty (voz de Ruby Stokes), amiga imaginária criada por Anne Frank (Emily Carey) e citada pela primeira vez em registro de 20 de junho de 1942, quando a jovem expressou seu desejo de fazer da escrita algo menos impessoal.
Após uma tempestade, o vidro que protege a edição original do diário (exibida ao público como parte do acervo que compõe o museu localizado em Amsterdã, no qual a casa da adolescente foi transformada) se parte e deixa o exemplar à solta.
É quando algo fantástico acontece: Kitty deixa de ser somente fruto da imaginação de Anne, nascida das palavras escritas com nanquim em um pequenino livro de recordações, para materializar-se na como uma garota tão real quanto possível, já que para existir neste mundo, precisa manter o livro perto de si.
Sem entender o que aconteceu, Kitty busca sua amiga, anseia por um reencontro que, em sua ingenuidade, não faz ideia de que não acontecerá. Há décadas, Anne está morta. Vítima da inconcebível maldade de quem se julgava superior a ela.
Encarar essa perda não é tarefa fácil, ainda mais quando tanto ao redor parece pulsar a fim de manter a força que uma jovem judia precisou encontrar para seguir lúcida e esperançosa, enquanto via o mundo colapsar sob as ações letais dos nazistas.
Museu, hospital, escola, ponte, são várias as homenagens feitas à Anne na Holanda, mas diante de tanto destaque, faz-se necessário o questionamento de Kitty: as pessoas realmente compreendem a importância de se ter empatia para com o próximo?
A resposta é tecida tão delicada quanto firmemente, através da mescla entre passado e presente e mostra que algumas coisas não acabaram, apenas se adaptaram à época: intolerância religiosa, deportação de imigrantes, guerras em andamento e ameaças de conflitos ainda mais destrutivos. Talvez não tenhamos evoluído tanto quanto deveríamos nesses 80 anos que marcam a partida de Anne.
Por si só, a narrativa já é o bastante para atrair a atenção do público, mas há de se elogiar também a sagacidade em se representar os antagonistas como figuras gigantescas e de aparência sombria, enquanto nos meandros imaginativos da sensível menina, ergue-se um exército composto por estrelas de cinema e figuras que ela admirava. A sequência de combate entre esses heterogêneos grupos é uma das melhores do longa.
“À Procura de Anne Frank” é um importante convite à reflexão, à necessidade de mudanças, à urgência de um avanço no pensamento, com o intuito de alcançar uma sociedade justa, onde a vida seja, de fato, um direito fundamental a todos.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pelo Filmelier+


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